A denúncia coletiva de estudantes vítimas de estupro e violência sofridos em festas na Faculdade de Medicina da USP feita na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo, na semana passada, foi muito importante, considerando a dificuldade de se tornarem públicas ocorrências desse tipo. A análise é do sociólogo Antônio Almeida.
Para ele, o caso não é um incidente isolado, um excesso ou uma fatalidade. “Fatos desse tipo ocorrem sistematicamente dentro do ambiente universitário”, afirmou Almeida, acrescentando que trotes violentos ocorrem de forma sistemática não só na Medicina da USP, como na Geociências da mesma universidade, na Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz (Esalq USP), na Faculdade de Medicina de Sorocaba e em escolas militares, como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). - É um grupo que consegue de alguma forma interferir no rumo da instituição. Às vezes até controlando a diretoria, ou outras comissões importantes, tentando estabelecer a pauta dessa instituição. E pra obter esse controle da instituição esse grupo não tem o menor escrúpulo em usar violência - revelou o professor em entrevista. “Em alguns casos a gente poderia até falar que são quadrilhas mesmo, organizadas, e que deveriam ser tratadas dessa forma pela lei. Tem situações que quem de fato comanda o grupo trotista são professores, dirigentes, diretores, reitores, às vezes pessoas do mercado de trabalho, ex-alunos”, completou. O professor do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq screveu três livros sobre trote, Universidade, preconceito e trote; Trote na Esalq; e Anatomia do Trote Universitário; além do projeto de pós-doutorado Trote Universitário e a Mídia. Ele explica que o grupo trotista tem uma disciplina rígida. No primeiro ano, o aluno que recebe o trote tem de se calar. Se não ficar em silêncio é expulso do grupo. “Esse silêncio é o mesmo das organizações mafiosas, que depois vai acobertar todas as práticas ilegais, indecentes, criminosas até desses grupos. Esse aluno que está lá no pedágio é um soldado raso de uma hierarquia que tem general. Às vezes, esse general é um docente da universidade, um diretor, o ministro da Agricultura ou o ministro da Saúde.”USP: a violência nas festas é o silêncio de uma máfia, diz sociólogo
Há muito dinheiro envolvido nos trotes e festas. A universidade, de alguma forma, acaba patrocinando esses grupos, informa Almeida, que é professor da Esalq. Eles recebem apoio institucional na forma de verba, de participação e comissões em coisas que na verdade não deveriam participar.
Domingo, 30 de Novembro de 2014 às 11:06, por: CdB