Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2026

Uso de agrotóxico pode intensificar desmatamento na Amazônia

Terça, 12 de Julho de 2011 às 08:17, por: CdB

Entrevista especialcom Jefferson Lobato

Em vistoria de rotina no município de Novo Aripuanã, nafloresta amazônica, técnicos do Ibama apreenderam quatro toneladas deherbicidas que seriam utilizadas para desmatar cerca de três mil hectares dafloresta. Em outra região, encontraram árvores secas, com poucos indícios dequeimadas, características que levam os profissionais a cogitar a possibilidadede ter ocorrido desmatamento químico em áreas florestais. De acordo com Lobato,o uso de agrotóxico para desmatar grandes extensões de terras é recorrente e seintensifica porque não há fiscalização na venda de herbicidas. "Se alguémchegar a uma loja agropecuária de Porto Velho-RO e perguntar quanto agrotóxicoé necessário para desmatar uma área florestal X, os vendedores fazem oscálculos de acordo com o número de hectares e vendem o produto. Isso demonstraque o uso de agrotóxico para desmatamento deve ser uma prática comum”, relataele à IHU On-Line em entrevista concedida por telefone.

Segundo Lobato, o desmatamento tradicional feito commotosserras é caro e o recrutamento de pessoas gera denúncias de desmatamento.Por isso, grileiros e fazendeiros optam pela pulverização de herbicidas. Alémde não chamar a atenção dos órgãos fiscalizadores, relata, "eles podem desmataras áreas até em períodos chuvosos porque utilizam um óleo mineral para fixar oagrotóxico nas plantas”.

Jefferson Lobato é graduado em Biologia pela UniversidadeFederal do Pará e em Agronomia pela Universidade Federal Rural da Amazônia.Atualmente, é analista ambiental do Ibama.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O Ibamaidentificou uma área da floresta amazônica, do tamanho de 180 campos defutebol, destruída pela ação de herbicidas. Pode nos relatar como ocorreu essainvestigação?

Jefferson Lobato – Nós estávamos monitorando áreas nomunicípio de Novo Aripuanã, no Amazonas, e identificamos que um dos fazendeirosiria fazer uma pulverização de herbicidas para desmatar uma área de três milhectares. Esse crime não aconteceu porque os fiscais do Ibama chegaram antes eevitaram que a área fosse desmatada. Achávamos que esta não era uma práticacomum. Porém, ao vistoriar outra área da região, identificamos que ela estavacom um aspecto diferente de desmatamento: as árvores estavam secas e com poucosindícios de queimadas. Essas características nos remetem ao uso de agrotóxicos,portanto, essa área pode ter sido desmatada com o uso de produtos químicos oupode ter ocorrido um incêndio florestal.
No dia 18 de julho, dois técnicos do Ibama e um perito farãouma análise na região para averiguar qual foi o real motivo do desmatamento.Pensamos que ocorreu desmatamento químico porque conseguimos impedir o uso deagrotóxicos em outra região. Sem a análise, porém, não podemos afirmar que foieste o real motivo do desmatamento.
Geralmente os fazendeiros e grileiros desmatam as áreas edepois colocam fogo. Esse é um processo caro e, com a prática do herbicida,eles podem desmatar as áreas até em períodos chuvosos porque utilizam um óleomineral para fixar o agrotóxico nas plantas.

IHU On-Line – Antesde averiguar esses dois possíveis casos de uso de herbicidas, o Ibama tinhaconhecimento de que os fazendeiros estavam usando agrotóxicos nas áreasflorestais?

Jefferson Lobato – O Ibama já havia detectado esta práticano passado. Em 1999, uma área em Boca do Acre foi desmatada com o uso deagrotóxico e também ocorreu um caso no Mato Grosso. Em 2005 tambémidentificamos uma área desmatada por uso de agrotóxico em Rondônia, mas não seidizer qual o tamanho territorial.
O grande problema é que a venda de herbicidas não éfiscalizada: se alguém chegar a uma loja agropecuária de Porto Velho eperguntar quanto agrotóxico é necessário para desmatar uma área florestal X, osvendedores fazem os cálculos de acordo com o número de hectares e vendem oproduto. Isso demonstra que o uso de agrotóxico para desmatamento deve ser umaprática comum.

IHU On-Line – Além dodesmatamento, por quais razões o uso de agrotóxico se intensificou na florestaamazônica?

Jefferson Lobato – Geralmente, quem usa agrotóxicos sãopessoas que querem ampliar a área de pastagem. Na Amazônia é difícil teraumento de produtividade por área e tem pouco incentivo para que se amplie aprodutividade. Para criarem mais gado ou plantarem mais soja, os fazendeirosdesmatam a floresta e abrem novas áreas produtivas. Desmatar mais para produzirmais é uma prática recorrente na Amazônia. Talvez se existisse mais incentivopara aumentar a produtividade, não seria necessário desmatar mais áreasflorestais.

IHU On-Line – Mas épossível aumentar a produtividade de forma sustentável, preservando a floresta?

Jefferson Lobato – Se houvesse manejo e licenciamentoestatais adequados e rigorosos em relação à regulamentação das terras, seriapossível fazer um trabalho sustentável junto às universidades e institutos depesquisas. Os órgãos de fomento poderiam aplicar o conhecimento existente paraaumentar a produtividades nessas áreas, evitando o desmatamento. Sabemos queexistem muitos grileiros que desmatam as terras para depois vendê-las.

IHU On-Line – Comoocorre a fiscalização do uso de agrotóxicos nas áreas florestais? Quais asmaiores dificuldades nesse processo?

Jefferson Lobato – Identificamos há pouco a possibilidade deos desmatadores estarem utilizando agrotóxico e, portanto, ficaremos alertaquanto a esse processo. Deveria ser fácil fiscalizar o uso de agrotóxicosporque o comércio de herbicidas tem que ser monitorado, mas isso não acontece.O Ibama terá de pensar uma nova estratégia para conter essa nova cadeia dedestruição ambiental.

IHU On-Line – O usode agrotóxicos em florestas tende a ser uma tendência?

Jefferson Lobato – Com certeza, essa é uma forma mais rápidapara desmatar grandes extensões de terras. Além disso, o desmatamento feito comagrotóxico não chama muita atenção dos órgãos fiscalizadores. Geralmente, osfazendeiros utilizam homens e motosserras para desmatar, mas o recrutamento depessoas gera denúncias de desmatamento e isso não é interessante para osdesmatadores. Se o uso de agrotóxicos para desmatamento for mais barato e maisprático para burlar a legislação, certamente ele será intensificado.

IHU On-Line – Segundouma notícia da Folha de S.Paulo, o Ibama apreendeu quatro toneladas deagrotóxicos. Em que região da floresta amazônica encontraram esse material eque destino deram a esses produtos?

Jefferson Lobato – Esses produtos foram encontrados nosudoeste do Amazonas, no município de Novo Aripuanã. Estávamos monitorando essaárea porque já sabíamos que o responsável iria desmatá-la e encontramos quatrotoneladas de herbicidas próximas a uma fazenda. Apreendemos o herbicida e olevamos para a base operativa do Ibama. Estamos aguardando que o Ministério daAgricultura venha buscar o produto porque não temos autorização paratransportá-lo. Possivelmente, o material será disponibilizado para pesquisa,mas isso depende do Ministério da Agricultura.

IHU On-Line – Quedanos ambientais os agrotóxicos podem causar à biodiversidade da floresta?

Jefferson Lobato – Geralmente, os desmatadores usam umherbicida sistêmico, que entra na planta e a mata por dentro. Esse é um produtoaltamente cancerígeno e tóxico, um multiplicador celular que pode prejudicar amicrobiologia do solo, a vida dos animais e a saúde humana, além de contaminarrios.

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