Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2026

Urariano Mota: O anticomunismo nas Escolas Militares

Terça, 12 de Julho de 2011 às 13:28, por: CdB

Imagino os jovens dos Colégios Militares, rapazes e mocinhas ardorosos obrigados a decorar algo como uma História vazia e violentadora, a que chamam História do Brasil – Império e República, de uma Coleção Marechal Trompowsky, da Biblioteca do Exército.
Por Urariano Mota, no Blog da Boitempo

O nome, a origem, oMarechal, por si, já não garantiriam um bom resultado. Estariam maispara pólvora que para a História. Mas não sejamos preconceituosos,ilustremos com o que os estudantes são obrigados a aprender, como aqui,por exemplo:

“Nosgovernos militares, em particular na gestão do presidente Médici, houvea censura dos meios de comunicação e o combate e eliminação dasguerrilhas, urbana e rural, porque a preservação da ordem pública eracondição necessária ao progresso do país.”

Umabreve pesquisa aponta que esses livros servem a um ensino orientadopela Diretoria de Ensino Preparatório e Assistencial (DEPA), criado em …1973, sim, naquele inesquecível ano da ditadura Médici. Ou naqueletempo do gestor democrático, segundo a orientação dada aos futurosmilitares. E não se pense que tal ensino está à margem da lei, não. Elese apoia em um certo Art 4º do R-69. Percebem? A caserna legisla. Masnão é assim, sem nada, pois a DEPA organiza a proposta pedagógica “deorientar o processo educacional e o ensino-aprendizagem na formação decidadãos intelectualmente preparados e cônscios do seu papel nasociedade segundo os valores e as tradições do Exército Brasileiro” (Grifo do seu documento). Que valores seriam esses, além das ideias anticomunistas do tempo da ditadura?

Pensoagora nesses jovens dos colégios militares mantidos com os olhosvendados, pois deles se oculta a violência e o terror sofridos poroutros jovens,  tão brasileiros, generosos e heroicos quanto eles hoje: 

“Eremiasse tornou um cadáver aos 18 anos: perfurado de balas, o rostoirreconhecível porque uma só ferida, os cabelos, tão úmidos, tão grossospor coágulos de sangue, davam a impressão de flutuar no chão seco. Nadahavia naquele cadáver que lembrasse o jovem que eu conhecera. O meninoque eu vira em 1968 não anunciava aquele fim. Eremias não era aquelesolhos apertados, a boca aberta à procura de ar, a lembrar um afogamento.Um estranho peixe, com os cabelos a flutuar no seco.

Eremiasmorreu como um herói, permitam-nos dizer. O aparelho onde estava caíra.Fora entregue por um outro jovem preso, que não suportara as torturas.Cercado por forças do Exército, Eremias sozinho resistiu. Resistiu àbala, sem nenhuma esperança”. 

Ou aqui, neste depoimento da advogada Mércia Albuquerque, que assim viu e viveu no tempo da gestão do presidente Médici:

“Soledadestava com os olhos muito abertos com expressão muito grande de terror,a boca estava entreaberta e o que mais me impressionou foi o sanguecoagulado em grande quantidade que estava, eu tenho a impressão que elafoi morta e ficou algum tempo deitada e a trouxeram, e o sangue quandocoagulou ficou preso nas pernas porque era uma quantidade grande e ofeto estava lá nos pés dela, não posso saber como foi parar ali ou sefoi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquelehorror.”

E também aqui, nesta personagem oculta aos estudantes:

“MariaAuxiliadora Lara Barcellos atirou-se nos trilhos de um trem na estaçãode metrô Charlottenburg, em Berlim… tinha sido presa 7 anos antes, em1969, no Brasil. Nunca mais conseguiu se recuperar plenamente dasprofundas marcas psíquicas deixadas pelas sevícias e violências de todotipo a que foi submetida. Durante o exílio, registrou num texto… ‘Foramintermináveis dias de Sodoma. Me pisaram, cuspiram, me despedaçaram emmil cacos. Me violentaram nos cantos mais íntimos. Foi um tempo semsorrisos. Um tempo de esgares, de gritos sufocados, de grito noescuro…’”

Essahistória trágica, mas ainda assim fecundante, o papel destruidor devidas pela Ordem da ditadura militar não pode nem deve ser ocultado. Háum clamor cidadão contra. Os colégios militares não podem mais continuarindependentes do Brasil, como se fossem ilhas inexpugnáveis àcivilização.

Nosdiscursos mais comuns dos oficiais militares que pretendem eternizaruma Escola imune à democracia e à história dos homens, argumenta-se: a)os jovens brasileiros que não se formaram no Colégio Militar não pensamnem se instruem; b) a história vivida e produzida por intelectuais edoutores das universidades brasileiras não serve para o ensino militar.Não seria mais simples que proclamassem, como o general fascista naEspanha, “morte à inteligência”? 

Em todos oslivros das Escolas Militares há um expurgo do genocídio de índios pelosbandeirantes, há uma nova Guerra do Paraguai que teria integrado todosos brasileiros (enquanto destruía o povo paraguaio), que unia até osescravos nacionais, mortos nas frentes com a promessa de liberdade; e,principalmente, o desaparecimento de vidas e execuções dos “apenas” 144mortos da ditadura, que almejavam uma felicidade de bandidos.

Eassim se formam novos oficiais, como se fossem a encarnação do Fantasmadas histórias em quadrinhos. De geração a geração com o mesmo caráter,com o mesmo papel, a cavalgar em um cavalo branco pelo vazio histórico.De 1964 a 2011, apesar de a Guerra Fria ter acabado, apesar de um índioter subido à presidência da Bolívia, apesar de um operário ter setornado o presidente do Brasil mais popular em todo o mundo, tudocontinua como antes no quartel de Abrantes. Igual aos tempos de CasteloBranco, Médici e Lyndon Johnson. 

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

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