Rio de Janeiro, 22 de Maio de 2026

Unicef denuncia estupros em campo de refugiados de Uganda

Quarta, 15 de Junho de 2005 às 06:49, por: CdB

Estupro, agressões sexuais e abusos contra crianças são comuns no maior campo de refugiados do norte de Uganda, onde dezenas de milhares de pessoas buscam proteção contra uma guerra de 19 anos, disse na quarta-feira o Unicef (órgão da ONU para a infância).

Cerca de 1,6 milhão de pessoas tiveram de fugir da rebelião do Exército de Resistência do Senhor (ERS) no norte de Uganda, o que provocou uma crise. Segundo especialistas, essa é a pior emergência negligenciada do mundo.

Os refugiados vivem em campos enormes e precários, onde a superlotação, o desespero e a "cultura do silêncio" estimulam a violência sexual, especialmente contra crianças, de acordo com um estudo do Unicef e de autoridades locais publicado nesta quarta-feira.

- Lidar com a violência sexual e de gênero, particularmente contra crianças, significa saber quando uma criança está sendo objeto de violência e saber como reagir para que a criança tenha um sistema confiável de ajuda ao qual recorrer - disse o representante do Unicef no país, Martin Mogwanja.

Em Pabbo, o maior campo de refugiados do norte de Uganda, vivem cerca de 67 mil pessoas, das quais mais de 70% são mulheres e crianças.

Os estupros são o tipo de violência mais comum por lá, mas o estigma que cerca as vítimas faz com que muitos casos não sejam denunciados, segundo o estudo.

O relatório diz que meninas de 13 a 17 anos são as maiores vítimas da violência sexual. Em seguida vêm as mulheres mais velhas e depois as crianças de 4 a 9 anos. As agressões são realizadas por parentes, estranhos ou soldados do governo.

Muitas vítimas sofrem graves traumas mentais e doenças, inclusive a Aids, de acordo com o relatório. Há carência de pessoal médico e insumos hospitalares para atender às vítimas, além de não existir nenhum programa do governo para combater a violência.

O texto diz que, nesta "cultura do silêncio", os homens não consideram o estupro matrimonial como crime, e que as vítimas de agressões sexuais, incestos e abusos infantis são frequentemente qualificadas de "derrotados".

A pobreza, a insegurança, as precárias condições de habitação e o alcoolismo também são responsáveis pela situação, disse o relatório.

Pabbo, cerca de 20 quilômetros a noroeste da cidade de Gulu, é apenas um dos vários campos que abrigam mais de 90 por cento da população nos três distritos mais turbulentos do norte de Uganda.

Os moradores dependem de ajuda humanitária para sobreviver, porque as terras vizinhas estão perigosas demais para o cultivo.

Bandos de combatentes do ERS, notórios por mutilarem sobreviventes e sequestrarem milhares de crianças, vagam pelas florestas e morros todas as noites, enquanto fogem do Exército e caçam comida e vítimas.

Ambos os lados ampliaram seus ataques neste ano, e muitos moradores da região temem que a guerra piore por causa da paralisação das negociações de paz, em fevereiro.

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