Uma missão da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) alertou para a necessidade de serem aplicadas políticas públicas corretas para o combate ao trabalho infantil no Paraguai, onde 241 mil crianças com menos de 17 anos trabalham desprotegidas, exploradas e até escravizadas.
"O medo que temos é de que nesta etapa, na qual o Paraguai está saindo de uma época obscura, ocorra uma involução", declarou a assessora de Proteção da Infância da Unicef para a América Latina e o Caribe, María Jesús Conde, que se encontrou esta semana com as autoridades paraguaias.
Os dados oficiais, recolhidos do Censo de 2002 podem ser mais alarmantes se for levado em consideração que o Censo de Lares realizado anualmente pela Direção Geral de Estatísticas, Enquetes e Censos situa em 285 mil as crianças trabalhadoras, o que faz o órgão das Nações Unidas temer que o problema não está sendo combatido.
A visita da missão aconteceu depois que o Governo anunciou um programa para retirar das ruas de Assunção e enviar para centros de menores 70 crianças em "situação de risco".
"Se começamos a falar que há 70 ou 80 crianças que são toxicômanas, que estão em situação de abandono na rua, a sociedade vai pedir uma intervenção e o Estado tem que intervir, mas o que temos que ver é como se dá esta intervenção, uma vez que o fim não justifica os meios", declarou Conde.
"Não se pode promover o internação de crianças. Esta é a resposta mais fácil e a que o conhecimento histórico que temos mostra que menos funciona". Segundo a Unicef, só em Assunção cerca de 6 mil crianças trabalham nas ruas, ao passo que aproximadamente 600 estão privadas de sua liberdade no país.
A ministra da Secretaria Nacional da Infância e Adolescência, Mercedes Brítez, atribuiu a problemas de "má interpretação" e "falta de informação" dos funcionários da Unicef as diferenças que possam surgir em relação à política do Governo.
Brítez disse à EFE que a Secretaria tem dois grandes programas de prevenção: um contra a exploração sexual e outro contra o trabalho infantil. Ela destacou ainda que, no caso de crianças em situação de "violação de seus direitos", se recorre à "captação voluntária". Os menores ficam internados em abrigos "enquanto são colocados de volta ao lado de suas famílias", disse a ministra.
Aqueles que não querem aderir ao programa, "que são manipulados por adultos", disse, se enquadram na área de atividade da Procuradoria e ficam fora do raio de atuação da Secretaria.
"A situação é cada vez mais grave, mais do que se sabe, porque houve um grande descaso por parte das pessoas que tinham que ser responsáveis por esta situação", declarou, em referência aos anteriores encarregados da instituição que encabeça há apenas dois meses.
Segundo a ministra, para quem "alguns organismos internacionais têm uma ideologia diferente (da do atual Governo)", esta carência de "liderança da parte do Estado" levou outros agentes a assumir responsabilidades.