Rio de Janeiro, 03 de Abril de 2026

Uma trégua, pelo amor de Deus

Por Alfredo Herkenhoff - Para as 37 crianças libanesas que morreram sob bombardeio de Israel, na manhã deste domingo, a violência do grupo terrorista Hizbolá não era tão definitiva. Não importam as justificativas dos apregoadores da verdade nas relações internacionais. (Leia Mais)

Domingo, 30 de Julho de 2006 às 18:47, por: CdB

Para as 37 crianças libanesas que morreram sob bombardeio de Israel, na manhã deste domingo, a violência do grupo terrorista Hizbolá não era tão definitiva. Não importam as justificativas dos apregoadores da verdade nas relações internacionais. A cada incursão de Israel contra as forças do fundamentalismo radical, as televisões do mundo exibem crianças com os corpos estraçalhados pelo impacto das bombas de um Estado soberano.

O que pode pensar cada criança do Sul do Líbano que ainda não morreu, e ainda não pôde ser levada às pressas para o Brasil, para a França ou para o Canadá? Pode dizer que sente a ameaça ou o medo das bombas de Israel de forma mais dramática do que a presença sorrateira dos foguetes da facção radical entre as suas casas e quintais?

O Hizbolá se fortalecia militarmente como guerrilha num país que nunca teve governo forte porque nunca foi livre, desde sempre ocupado por proteção ora otomana, ora francesa ou agora, de fato, pela defesa moralizadora das bombas de Israel.  Bombas soit disant moralizadoras ou justas caem do céu azul, despejadas por jatos de fabricação americana sem que as crianças do Sul do Líbano tenham sido ouvidas para explicar por que não saíram de suas casas conforme pedido ou aviso dos militares de Israel. Não teriam saído porque não queriam ou porque não puderam deixar de ser escudo humano de uma facção armada no contexto político de um país sem um Estado com poder de fato sobre o seu próprio território?

As crianças do resto do mundo, diante das imagens de crianças aterrorizadas chegando com suas mães nos aeroportos da liberdade, o que pensar das bombas de Israel?

Como comunidade que sofreu a diáspora de 2 mil anos, perseguições e violência ao longo desses 20 séculos, os judeus voltaram com suas crianças à Terra Prometida sem considerar plenamente que havia um fato consumado: a presença no mesmo espaço de centenas de milhares de palestinos com suas crianças ali escrevendo uma história paupérrima durante os últimos 700 anos.

Em meio século, um outro fato consumado mostra que o Estado de Israel conviverá com outro Estado soberano, o palestino, em nome de suas respectivas crianças. Porque ninguém melhor do que os judeus sabe que é impossível eliminar um povo por ato exterminador de um ditador, quanto mais por decisão de uma democracia.

Em meio século, quem mais atrapalha o processo pela paz entre os povos israelense e palestino não são as suas crianças, mas as armas sofisticadas, o petróleo e os radicais de terceiros países, estimulando tudo o que puder aumentar o ódio entre duas comunidades amarguradas pela insegurança quanto à própria sobrevivência. Hoje atrapalham a paz os americanos e iranianos. Ontem eram os sírios e os egípcios.

Em meio século de conflito pelo espaço, crianças da Palestina fugiram ou foram expulsas para os quatro cantos do mundo. Milhares foram viver nos países vizinhos de Israel. Outras foram parar nos rincões mato-grossenses, no Pantanal do esquecimento da terra de seus avós.

Crianças libanesas, crianças palestinas, crianças israelenses e crianças do resto do mundo não são chamadas a emitir opiniões sobre uma guerra que chega dos céus, caindo sobre seus quintais onde nunca mais poderão acreditar na segurança que os pais normalmente procuram dar a seus filhos. Quantos traumas, quanto tempo para diluir essas dores e transformá-las em esperança de convivência pacífica?

Quanto mais terrorista Israel ataca, mais as televisões exibem crianças mortas, mutiladas ou traumatizadas pelos estrondos, em meio à dor e à fuga. A desproporção entre o número de terroristas mortos e crianças inocentes executadas pelas bombas das políticas militares humilha o bom senso. Como imaginar que um movimento radical dentro de um Estado dividido como o Líbano vai enfraquecer se germina no meio de uma etnia religiosa que, de forma crescente, em países com petróleo, parece disposta a açambarcar a causa palestina como se fos

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