Por Maria Lúcia Dahl - Passei minha infância em Petrópolis: fins de semana e férias em Quitandinha me marcaram pra sempre, com seu chão de mármore, seus corredores de listas verdes e brancas, a piscina de água quente...
Por Maria Lúcia Dahl, do Rio de Janeiro
Passei minha infância em Petrópolis: fins de semana e férias em Quitandinha me marcaram pra sempre, com seu chão de mármore, seus corredores de listas verdes e brancas, a piscina de água quente, o lago com seus barquinhos onde andava com babá e minha irmã, o bar com os artistas de Hollywood, como Lana Turner, de quem minha irmã achou um grampo dourado no corredor do seu quarto , numa época em que no Brasil só existiam grampos negros, artistas da Atlântida, como Eliane e Adelaide Chiozzo, que entravam no elevador, sempre olhando pro chão pra não falarem com ninguém, o que me fazia implicar com elas e acha-las antipáticas,o cheiro de lança-perfume no ar, os bailes infantis de Carnaval onde me fantasiava de tirolêz, as músicas inesquecíveis da época.
Colunista lembra de sua infância e juventude em Petrópolis
À tarde íamos ao Museu Imperial colocar aqueles chinelos que deslizavam pelo mármore, ver a coroa de brilhantes do Rei rodar na vitrine, os salões cheios de quadros e espelhos, pratos, pratas, copos e cálices de cristal que meu avô ganhou alguns de presente,por ser amigo da família imperial, e que esta semana que passou, fui mostrar a uma amiga, aqui em casa, e o cálice escorregou da minha mão transformando-se numa poeira verde, brilhando em cima do tapete, que não consegui encarar.
Prefiro voltar à Petrópolis e andar de patins, depois tomar um chocolate no DÁngelo.
Essa foi minha infância gravada no meu cérebro, em Petrópolis, o início inesquecível da minha biografia que visito até hoje, quase todos os fins de semana, com exceção, devido a coincidências inesperadas à casa de Santos Dumont, que por incrível que pareça, jamais consegui entrar.
Devido a infância da minha filha que se passou na Europa por causa do exílio de seu pai, não pude dar a ela a mesma trajetória de quando eu era pequena, mas o fiz com meus netos que repetiram todos os meus passeios à Petrópolis, com a mesma alegria que me dominou na época, e foi muito gratificante, agora, semana passada, quando o mais velho deles me levou a um novo museu, o Museu de Cera, construído no início do século 20 em estilo espanhol, feito por estúdios americanos e ingleses.
E eu, que esperava encontrar nele a família imperial de Petrópolis, só vi D. Pedro II e a Princeza Izabel, enturmados com Ayrton Senna, de cabelos ao vento , Pelé, Johnny Depp, Hitchcock e Santos Dumont num bate-papo animado com risos e gargalhadas até nós voltarmos pra casa pela Av. Koeller fazendo-me retornar, de neto em punho, à minha infância querida que os anos trazem para mim.
Maria Lúcia Dahl, atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins
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