O governador licenciado do Distrito Federal, José Roberto Arruda, completou nesta quarta-feira uma semana de prisão no Instituto Nacional de Criminalística (INC), da superintendência da Polícia Federal, em Brasília. Durante o feriado de carnaval, Arruda recebeu poucas visitas. Entre elas, a da esposa, Flávia Arruda, e de advogados. O café da manhã chegou depois das 10h.
Na segunda-feira, pela primeira desde que chegou à sede da PF, Arruda apareceu na janela. Por várias vezes, ele afastou as persianas para ver um grupo de apoiadores que rezava e gritava por ele do lado de fora do prédio. Arruda, no entanto, está cercado de problemas insolúveis. Além da prisão, que poderá se estender indefinidamente, até que o processo seja julgado, aliados do governador dividem-se quanto à necessidade de seu afastamento definitivo, pela renúncia ao cargo.
Fábio Simão, ex-chefe de gabinete do governador é um dos interlocutores mais próximos do governador afastado e o mais ferrenho defensor da continuidade de Arruda no cargo. Simão também está entre os suspeitos de crimer diversos e é investigado pela Polícia Federal na Operação Caixa de Pandora. De acordo com Simão, Arruda não tem mais nada a perder e tende a ser abandonado pela sua base aliadas se deixar o cargo.
Contrários à permanência de Arruda à frente do governo estão deputados como Alírio Neto (PPS), ex-secretário de Justiça. Ele alega que manter Arruda no cargo significa comprometer a parte jurídica do processo. Ele acredita que, se renunciar, ele não poderia mais ser acusado de usar a máquina para prejudicar a investigação, o que poderia ajudar na sua liberação. Arruda, no entanto, segundo o secretário de Transportes do DF, Alberto Fraga (PMDB), disse que não pretende renunciar.
A prisão de Arruda foi decretada pelo Superior Tribunal de justiça por tentativa de suborno a uma testemunha de corrupção contra o seu governo. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pediu intervenção federal no DF sob o argumento de que toda a linha sucessória do governo local está sob suspeita de envolvimento com um esquema de corrupção.
Gozação
O bloco carnavalesco Pacotão, que completou este ano 32 anos, desfilou no último dia de carnaval com Arruda em seu samba enredo, como relata Paulo Roberto, integrante do bloco.
– Nos 50 anos da cidade, ganhamos um presente emblemático e inspirador. Pela primeira vez, um governador é preso por corrupção – disse o folião, referindo-se ao governador preso desde quinta-feira na sede da Superintendência da Polícia Federal.
O tema deste ano eram os 50 anos de Brasília, mas as notícias mais recentes acrescentaram novas faixas e cartazes ao bloco, com frases como estas: “Panetone é pra Ceia, Dinheiro na Meia e o Bolsetão da Feia” e “Governador Arruda, o Último a Sair Rouba a Luz.” Todas são relativas a personalidades públicas acusadas de envolvimento no esquema que seria chefiado por Arruda.
Um dos fundadores do bloco e integrante da Comissão Desorganizadora, o cartunista Joca Pavarotti, disse que os foliões foram surpreendidos com os acontecimentos.
– Somos jornalistas, trabalhamos em cima da notícia, mas desta vez fomos atropelados pelos acontecimentos, devíamos ter sido comunicados antes sobre a prisão de Arruda – ironizou.
Pavaroti disse que, mesmo assim, os músicos que integram o bloco conseguiram criar uma marchinha.
"O Pacotão pediu um habeas corpus para sair na quarta-feira, mas a Justiça é cega, surda e muda e soltará o Arruda antes”, diz a letra.
Entre os 50 concorrentes no concurso para a escolha da música a ser cantada pelo bloco, 25 foram selecionadas e 12 integraram o CD que é lançado todo o ano. A campeã foi Bolsetão de Eurides, que refere-se à deputada Eurides Brito, que aparece em um vídeo recebendo maços de dinheiro, supostamente em pagamento de propina e guardando em uma bolsa grande.
“Eurides Brito encheu o bolsetão com o dinheiro da corrupção. Mas ela é feia! É muito feia! Mas ela está com a bolseta cheia”, diz a marchinha campeã.
De acordo com a Polícia Militar do Distrito Federal, mais de 10 mil pessoas integraram o bloco, no decorrer da caminhada que começou por volta das 16h30 na Asa Norte de Brasília e terminou na Esplanada dos Ministérios. O Pacotão foi criado por um grupo de jornalistas em 1978, ironizando o Pacote de Abril, lançado pelo presidente Ernesto Geisel, no ano anterior, durante o regime militar. A Sociedade Armorial Patafísica Rusticana Pacotão satiriza todos os anos a classe política.