Rio de Janeiro, 05 de Setembro de 2026

Uma história de subserviência ou, a hora de pedir um conhaque

Por Gilberto de Souza - Ao lembrar os tempos da Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido do "Sim, senhor", na mesma época em que havia o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), então simplesmente o partido do "Sim" à ditadura militar instaurada no país, é possível localizar personas como essas que, hoje, habitam o atoleiro em que se encontra o candidato tucano. (Leia Mais)

Sábado, 26 de Junho de 2010 às 18:28, por: CdB

Ao lembrar os tempos da Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido do "Sim, senhor", na mesma época em que havia o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), então simplesmente o partido do "Sim" à ditadura militar instaurada no país, é possível localizar personas como essas que, hoje, habitam o atoleiro em que se encontra o candidato tucano à Presidência da República, José Serra. A maioria, no Partido Democratas, o DEM.

Dois deles foram indicados para acompanhar o expoente da direita nacional na missão, cada vez mais arriscada, de remar até Brasília: José Carlos Aleluia (BA) e José Agripino Maia (RN). Ambos cresceram à sombra do Carlismo, uma espécie de manto protetor dos generais de plantão sobre o Nordeste, representado pelo finado Antônio Carlos Magalhães. Não há referência mais eloqüente do que esta para caracterizar a cepa onde se desenvolveram tais organismos.

Óbvio que a turma do PSDB sabe, melhor do que ninguém, a extensão de telhados de vidro tão grandes quanto estes oferecidos, de bom grado, por aliados fiéis – embora rotos e esfarrapados após escândalos em série, que ainda sacodem a opinião pública desde Belo Horizonte até a Capital Federal – e tratou de descartar tais opções. Muito mais por medo da propaganda negativa do que, propriamente, pela ótica da cartilha dos direitos humanos, rasgada à época em que eles graçavam como inquilinos do poder imposto pelas armas.

Ficaram com a opção caseira mais insípida, ainda que para solucionar uma das tantas querelas regionais, esta lá pelas bandas do Paraná. Sem se aperceber de sua condição de bom cabrito, o senador Álvaro Dias, irmão do pedetista Osmar Dias – candidato ao governo paranaense – ainda assim vendeu caro o palanque a Serra no Estado onde, por enquanto, o tucano segue adiante da adversária petista, Dilma Rousseff.

Na tentativa de suprimir a insipidez política, o senador Álvaro Dias usa o destempero no ataque aos adversários, ao estilo consagrado pela Madame Satã da Velha Lapa, do Rio de Janeiro, nos primórdios do século passado, ainda que sem o seu carisma, mas certamente com o tom exagerado que lhe foi característico. Paciência. Foi o que restou ao tucanato, após a sábia decisão do ex-governador mineiro, de seguir adiante, sem se preocupar com os rosnados da ultradireita, que ameaçava abandonar o barquinho, em vez de ajudar na baldeação.

É óbvio que o DEM não vai a lugar algum, pois a esta altura da campanha, sozinho, tende a desaparecer no mundão de votos que os eleitores carrearão para a legenda adversária. Portanto, deverá permanecer exatamente onde está, ou seja, a reboque do que decidir o líder da aliança, no seu jeitão de "manda quem pode, obedece quem não tem outra coisa melhor para fazer".

Da mesma forma como rastejaram perante o generalato tresloucado na "Redentora", o fazem agora o DEM e seus acólitos, prontos a seguir a extensa linhagem da subserviência aos interesses do capital transnacional, esse mesmo que distribui bônus milionários aos banqueiros das mesmas instituições que expuseram a banda podre do capitalismo. Sem dúvida, estes mereceriam um prêmio por serviço tão relevante à causa humanitária, ao expor as fraturas de um sistema vil, mas exageraram tanto na dose que o Congresso dos Estados Unidos, após gafe tamanha, conseguiu aprovar a lei de regulamentação do mercado de ações e do sistema financeiro, que tramitava há mais de duas décadas em seus corredores. A realidade é que, se estão perdidos com a decisão serrista de lhes tomar o assento na nau em apuros, pior estariam se a abandonasse.

Mal assumiu a condição de possível candidato à Vice-presidência da República, porém, o senador paranaense acionou a metralhadora giratória contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso na convenção de seu partido em Cuiabá, neste sábado, ao afirmar que o governo federal "usa mentiras para esconder suas falcatruas". Mal sabe ele que seu líder tem tentado evitar os ataques diretos e ineficazes a um presidente que deixa o cargo com mais de 80% de aprovação popular, sob pena de ter a frágil aliança com o DEM exposta no Escândalo dos Panetones, na distribuição de benesses às revistas semanais da direita durante o governo do Estado de São Paulo ou, ainda, explicar o que a Operação Satiagraha apurou, mas não conseguiu ainda divulgar. Ou seja, no jargão futebolístico, próprio para esses dias de Copa do Mundo, já começa saindo mal do gol.

Para quem deveria trajar o hábito da humildade e da discrição, o possível candidato a vice de Serra preferiu as plumas e paetês do discurso jactante, mais apropriadas ao brilho efêmero dos holofotes acesos pela imprensa burguesa. Nesse momento, cabe aqui refletir que a vida do ex-governador paulista está uma dureza.

Melhor pedir um conhaque.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil.

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