Rio de Janeiro, 26 de Setembro de 2026

Um projeto chamado Brasil

Por Flavio Aguiar - Vez por outra amigos me chamam de um nostálgico de Vargas. Às vezes isso vem como elogio, às vezes como crítica. Acho isso impressionante: ainda hoje, 50 anos após sua morte, a lembrança de Vargas desperta emoções e comoções. (Leia Mais)

Terça, 13 de Julho de 2004 às 09:24, por: CdB

Vez por outra amigos meus me chamam de um nostálgico de Vargas. Às vezes isso vem como elogio, às vezes como crítica. Acho isso impressionante: ainda hoje, cinqüenta anos depois da sua morte, a lembrança de Vargas desperta emoções e comoções. Vargas, o autoritário, Vargas, o ditador, Vargas, o trabalhista, Vargas, o estadista. Nenhum outro político brasileiro daquela época teve esse poder de galvanizar os sentimentos. Juscelino caiu numa espécie de limbo: a nostalgia por seu sorriso é unanimidade nacional. Mas ninguém é "a favor" de Juscelino ou "contra" Juscelino, do mesmo modo como se é "a favor" de Vargas ou "contra" ele. Tamanha paixão só tem equivalente em relação aos técnicos de futebol: antes da Copa de 2002 quase todo o Brasil era "contra" o Felipão; depois, todo mundo ficou "a favor", a ponto de se torcer por Portugal do Oiapoque ao Chuí e do Cabo Branco a Cruzeiro do Sul, como se fosse pelo Brasil.
Mais recentemente, só dois políticos tiveram esse poder em nível nacional: Brizola, até sua morte; Lula, até sua eleição. Vamos ver que paixões o presidente Lula deixará como herança. Outros, como Ulisses Guimarães, Teotônio Vilela, Tancredo Neves, chegaram a galvanizar a opinião pública em determinados momentos. Mas também não deixaram esse travo do "contra" e do "a favor".

O que Getúlio teve que os outros não tiveram? É claro que deve contar a sua atitude de se suicidar para não ser deposto. Aquele tiro atingiu o coração de todos os brasileiros vivos então, até o meu, que era o de uma criança de sete anos de idade. Isso poderia explicar a lembrança, até uma certa reverência, para além das críticas possíveis. Mas não explica a paixão.

Arrisco um palpite: Getúlio encarnou um projeto, um projeto chamado Brasil. Juscelino encarnou um projeto chamado Brasília e um projeto de modernização da sociedade brasileira galvanizado pelo seu lema "cinqüenta anos em cinco". Mas não se usa em relação a ele a expressão, como se faz no caso de Getúlio, de que havia "um Brasil antes dele e outro depois".

A esquerda até hoje tem dificuldades com o nacionalismo de Vargas. Para os comunistas de então o nacionalismo era uma tática imposta em parte pela tese do socialismo num só país, e depois da revolução chinesa, requerida pela política de se romper com "o Brasil feudal" e impor "a revolução burguesa" à própria burguesia. Para os socialistas que cresceram depois o nacionalismo virou quase um anátema, calcado nos moldes europeus em que se tenta enquadrar o Brasil.

Mas o nacionalismo de Vargas não pode ser entendido sem o trabalhismo que cresceu junto com ele. O principal fruto desse nacionalismo foi entronizar a nação brasileira, com seu tamanho real, dentro da política nacional. Vargas promoveu essa entronização sob a batuta autoritária e depois sob a música populista, não resta dúvida. Mas promoveu, e fez o que nenhum governo da República Velha tinha feito, criando um cenário político que a ditadura de 64 fez tudo para suprimir, e que teve de ser penosamente reconstruído depois de 1985, num processo de amadurecimento republicano que ainda não acabou.

Dos presidentes da ditadura pode-se dizer que Geisel tinha também um projeto de Brasil; mas era um Brasil, convenhamos, sem brasileiros, pelo menos no cenário político. Golbery tinha projeto, mas carisma não, e pela mesma razão: seu Brasil, no fundo, não tinha brasileiros; ambos rejeitavam a soberania popular. Também os golpistas de 1945 não se pautavam por um conceito de soberania popular: a democracia, para os que puseram os tanques nas ruas, era mais um pretexto do que um motivo, embora a esquerda os saudasse. A idéia de uma soberania popular, esboçada em 1930, descortinada em 1934 pela nova constituição (que entre outras coisas assegurava o voto às mulheres), só veio a se implantar na Presidência com o retorno de Vargas em 50, e ganhou um batismo de sangue em 54.

O nacionalismo de Vargas tinha portanto o formato do Brasil, não o alemão, não o

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