Rio de Janeiro, 30 de Agosto de 2026

Um poeta português

Po Adelto Gonçalves - Alexandre O'Neill – Uma Biografia Literária, de Maria Antónia Oliveira, é uma biografia do poeta que está entre os maiores da segunda metade do século XX.

Sexta, 02 de Outubro de 2015 às 14:13, por: CdB
Por Adelto Gonçalves, de Amparo, São Paulo:
DIRETO-CONVIDADO.jpg
Em meio à crise política, Adelto Gonçalves nos propõe uma pausa para curtir um poeta português
Ainda que não seja regra, uma biografia costuma começar pelo nascimento do biografado ou, melhor ainda, por seus ancestrais, mas nada impede que comece pelo dia de sua morte. Pois é assim que tem início Alexandre O'Neill –  Uma Biografia Literária, de Maria Antónia Oliveira, o que mostra quão inovadora é esta biografia de um poeta que está entre os maiores da segunda metade do século XX em Portugal. Como ainda era muito jovem quando o poeta morreu, a biógrafa, provavelmente, nunca esteve próxima de seu biografado. Mas pôde reconstruir sua trajetória, praticamente, sem lacunas, ao dar a palavra aos amigos do poeta, acompanhando os seus passos por Lisboa. Recuperou assim a sua paixão pelo Surrealismo, de que foi um dos maiores divulgadores em Portugal, seus amores, suas facetas de publicitário e colecionador e a história de “Um Adeus Português”, o seu poema mais famoso, do qual transcrevemos abaixo apenas as duas primeiras estrofes e a última para deixar o leitor que o não conhece com água na boca: Nos teus olhos altamente perigosos vigora ainda o mais rigoroso amor a luz de ombros puros e a sombra de uma angústia já purificada   Não tu não podias ficar presa comigo à roda em que apodreço apodrecemos a esta pata ensanguentada que vacila quase medita e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor (...)               (...) Nesta curva tão terna e lancinante que vai ser que já é o teu desaparecimento digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti.   Graças ao trabalho de investigação da biógrafa, fica-se sabendo que o poema surgiu em homenagem a uma antiga namorada, à época em que o poeta tinha 26 anos de idade, Nora Mitrani, uma francesa que não era bem vista por sua família, a ponto de esta ter se movimentado para que a polícia salazarista lhe negasse passaporte para ir ao encontro dela em França. Alexandre seria chamado à Pide, a polícia política do regime direitista de António Salazar, para um interrogatório que teria durado quase quinze horas, conforme recordou o próprio poeta em crônica escrita em 1984. Nora, que para a Pide seria uma perigosa agitadora esquerdista, nunca mais veria Alexandre: viveria mais onze anos, até suicidar-se ao saber que tinha câncer. Foi desse amor contrariado que nasceu o famoso poema, que a homenageada chegou a ler comovida, como confessou em carta que enviou ao poeta. II Maria Antónia recupera ainda os entusiasmos literários do jovem O´Neill. Com isso, sabe-se de sua descoberta, “um fervor que nunca abandonou”, da poesia brasileira, especialmente de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Guilherme de Almeida, Cecília Meireles, Mário de Andrade, Jorge de Lima e Ribeiro Couto, ainda na década de 1940. Reconstitui quase passo a passo a trajetória de vida do poeta, detendo-se naqueles mais significativos, como o conhecimento que, durante o inverno de 1956, travou com Maria Noémia de Freitas Delgado, uma rapariga que viera de Moçambique para estudar Belas-Artes em Lisboa, com quem ele se casaria. Para reconstituir a vida do poeta, a biógrafa lembra que recolheu cerca de 50 depoimentos de pessoas que o conheceram, além de vasculhar papéis no Arquivo Nacional da Torre do Tomo, na Biblioteca Nacional de Lisboa e outros. E confessa as dúvidas que passou diante de tanta informação levantada, a ponto de admitir que, perante a dificuldade para estabelecer uma verdade impossível, escreveu uma “curiosa mistura de narrativa ficcional e de realidade”. Seja como for, o resultado é uma biografia que encanta o leitor desde as primeiras linhas, ao permitir também que aquele que a lê conheça ou reconheça a Lisboa daqueles anos, ressuscitando às vezes lugares já perdidos no tempo que foram locais de convivência de O´Neill com os amigos, na maioria intelectuais. E ainda o amor que viveu com Teresa Gouveia, com quem se casaria em 1971, em meio à oposição da família da moça. Tinha ele 45 anos de idade e ela, 25. Sem contar que o poeta carregava fama de ser “um desbragado estúrdio, devasso, estróina e perdulário”. E a família da rapariga era tradicional em meio a uma sociedade fechada e conservadora como a portuguesa do começo dos anos 70. Teresa viveria com Alexandre até o fim de sua vida. Esposa de um poeta, não deixaria de cumprir, porém, uma carreira importante na estrutura da burocracia portuguesa pós-queda do salazarismo. Em 16 de abril de 1986, quando o poeta sofreu o segundo acidente vascular cerebral que o derrubaria para sempre, ela atuava como secretária de Estado da Cultura no governo do professor Aníbal Cavaco Silva. III Alexandre O´Neill nasceu em 1924, em Lisboa. Participou da criação do Grupo Surrealista de Lisboa em 1947. Editou o seu primeiro livro de poesia, No Reino da Dinamarca, em 1958, do qual consta o seu poema mais célebre, “Um Adeus Português”. Escreveu também letras para fados e traduziu e organizou antologias. Assinou colunas em jornais lisboetas e colaborou em revistas literárias. Escreveu para teatro, cinema e televisão, mas viveu basicamente de seu trabalho como copyem publicidade. Morreu a 21 de agosto de 1986, em Lisboa. Maria Antónia Oliveira (1964), nascida em Viseu, é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses e Franceses), pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1982-1986), e mestre em Estudos Literários Comparados pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1994), com a tese “O Grande Hotel Universal – A Poesia de Mário de Sá-Carneiro”. Concluiu o doutoramento, em 2010, em Estudos Portugueses, na Universidade Nova de Lisboa, com a tese “Os Biógrafos de Camilo”. Foi professora de Literatura Portuguesa entre os anos de 1994 e 2005, no Instituto Piaget; colaboradora do suplemento Leituras do jornal Público, de Lisboa, da revista de poesia Relâmpago (Fundação Luís Miguel Nava) e da Revista LX Metrópole; formadora de e-Learning no âmbito do programa Projeto e-Inovar da Escola Superior de Educação de Coimbra; e fez trabalho de investigação para a revista Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. É responsável com Fernando Cabral Martins pela edição de Anos 70 – Poemas Dispersos, de Alexandre O’Neill(Lisboa, Assírio & Alvim, 2005); edição e posfácio de Uma Coisa em Forma de Assim, de Alexandre O’Neill (Lisboa, Assírio & Alvim, 2004); edição e prefácio da obra Céu em Fogo, de Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, Relógio d’Água, 1998); e prefácio à reedição de No Reino da Dinamarca, de Alexandre O’Neill (Lisboa, Relógio d’Água, 1997). Ganhou ainda o Prêmio de Revelação de Ensaio APE/IPLL do ano de 1990, pelo trabalho A Tristeza Contentinha de Alexandre O’Neill, ensaio publicado no ano de 1992, pela Editorial Caminho, de Lisboa. Alexandre O´Neill – Uma Biografia Literária, de Maria Antónia Oliveira. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 346 págs. Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015),Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003),Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), eDireito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros.  Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins
Tags:
Edições digital e impressa