Rio de Janeiro, 08 de Outubro de 2026

Um planeta grisalho de norte a sul

Quinta, 04 de Agosto de 2011 às 06:23, por: CdB

Como vamos lidar com o envelhecimento da população? Viveremos mais no futuro? Até que idade deveremos trabalhar? Continuação e fim de nossa entrevista com o demógrafo suíço Philippe Wanner.

Durante o século XX, a população mundial explodiu de 1,6 bilhões em 1900 para 6,1 bilhões em 2000. O crescimento deverá continuar durante todo o século XXI.

O fenômeno da transição demográfica não deve acontecer tão rapidamente como o esperado em algumas partes do globo. Segundo as projeções da ONU, em 2011, oficialmente no dia 31 de outubro, seremos 7 bilhões a morar no planeta.
 
Na terceira parte da entrevista à swissinfo.ch, o demógrafo suíço Philippe Wanner, professor da Universidade de Genebra, fala principalmente do enorme desafio que representa o envelhecimento da população.

swissinfo.ch: Mais do que a superpopulação, o envelhecimento não é o maior desafio demográfico do século XXI?

PW: O fenômeno da transição demográfica resulta automaticamente um envelhecimento da pirâmide de idades. É uma transformação totalmente nova em uma escala global. Falamos muito sobre a questão nos debates sobre o futuro da previdência. Na Europa, esse problema não é recente e já é discutido há um século, enquanto que na China ou na Índia o fenômeno ocorrerá em apenas dez ou quinze anos. A Europa tem tempo e recursos para se preparar. Em outros países, ele irá causar problemas econômicos consideráveis.

O demógrafo Philippe Wanner em entrevista à televisão suíça. (tsr)

swissinfo.ch: Na China, o envelhecimento da população é o resultado da política restritiva da taxa de natalidade. Um relaxamento ou reversão dessa política seria suficiente para inverter a tendência?

PW: As autoridades chinesas estão tomando consciência do envelhecimento da população e seu impacto. Na década de 1970, foi para limitar o crescimento populacional. Quarenta anos depois, os chineses estão descobrindo que algumas gerações estão faltando e começam a relaxar essa política. Um casal composto de filhos únicos agora tem o direito de ter dois filhos. Mas a tendência vai levar tempo para reverter. Em uma família chinesa com quatro avós, dois pais e uma criança, essa última terá de arcar com o ônus dessas seis pessoas. O desafio econômico é colossal.

swissinfo.ch: Será que estamos realmente cientes das consequências do envelhecimento da população?

PW: Não, porque reagimos à situação de hoje. Envelhecimento significa aumento do número de aposentados, mas também evolução da sociedade. O envelhecimento é quase sempre considerado um problema, porque se refere às estruturas existentes. Abstraímos a noção de chance que está relacionada ao envelhecimento, a chance individual de viver mais tempo, mas também a de organizar uma sociedade diferente.

swissinfo.ch: Como será essa humanidade composta principalmente de "velhos"?

PW: Será de outra forma. As pessoas trabalharão mais, mas certamente porque terão meios e oportunidades em termos de saúde. As organizações familiares serão revistas e a sociedade muito mais focada nos aspectos práticos de uma população mais dependente. As calçadas serão alargadas, as "casas inteligentes" para os idosos serão generalizadas, as contribuições tecnológicas beneficiarão principalmente essa população que envelhece. A sociedade funcionará em um ritmo diferente, o mercado de trabalho vai contratar mais idosos a tempo parcial. O conforto será geralmente mais importante, embora ainda restem muitos desafios principalmente em termos de seguro social.

" O envelhecimento da população é quase sempre considerado um problema, quando na verdade é uma chance. "
Philippe Wanner, demógrafoswissinfo.ch: Você parece otimista com a capacidade da humanidade de se adaptar a esta nova situação.

PW: Estou bastante otimista. A diminuição de nascimentos também respondeu a uma certa lógica social, como parte do êxodo rural. Não havia mais espaço para tantas crianças nas cidades. O mesmo se aplica ao envelhecimento da população. É uma mudança sistêmica, a sociedade vai se adaptar de maneira que leve em conta os indivíduos mais idosos.

swissinfo.ch: Mas será que viveremos mais no futuro?

PW: Não sabemos nada sobre isso. Reviravoltas de tendências são possíveis. Na Rússia, a expectativa de vida diminuiu. No entanto, o envelhecimento do topo deve continuar. Pelo menos nos próximos anos, com essa massa de "baby boomers", hoje com idades entre 45 e 65 anos, atingindo a aposentadoria. Porque não há nenhuma razão para que esta geração morra cedo.

swissinfo.ch: Em países desenvolvidos, o debate público em torno da necessidade de aumentar a idade da aposentadoria já dura vários anos. Teremos inexoravelmente que trabalhar mais tempo?

PW: Pessoalmente, não sou a favor de aumentar a idade da aposentadoria. No debate político, as posições são muito divergentes e ideológicas. Mas tudo é muito mais complexo. Na verdade, ainda não temos conhecimento e dados sobre a sobrevivência diferencial de pessoas com idade acima de 65 anos. Em geral, será melhor atender às aspirações das pessoas mais velhas que querem trabalhar mais tempo. Se a sociedade estiver pronta para se adaptar, então não haverá problema.

swissinfo.ch: A pressão demográfica também é sentida na Suíça. Quantos habitantes nosso país ainda pode acolher?

PW: Segundo as projeções da Secretaria Federal de Estatística, devemos chegar a 9 milhões em 2050. Eu não me importaria com uma Suíça de 10 milhões de habitantes. O crescimento significativo da população que a Suíça experimenta é principalmente devido à imigração de pessoal altamente qualificado. Para que haja essa imigração é necessário empresas e infraestruturas adequadas, particularmente de transportes e habitação. A Suíça reluta às vezes em fazer tais investimentos. Mas acho que o país continuará sendo atraente para os trabalhadores estrangeiros.

swissinfo.ch: Uma Suíça com dez milhões supõe um aumento da imigração. Os cidadãos querem realmente isso?

PW: A imigração tem sido enorme nos últimos anos, com uma imigração líquida anual de cerca de 80 mil pessoas, ou o tamanho de uma cidade como St. Gallen. Claro, a opinião popular é bastante contida em matéria de imigração, mas o debate é primordialmente em torno da proporção de estrangeiros, que se manteve relativamente estável por causa das 40 mil naturalizações que são feitas anualmente. A imigração é aceitável, desde que haja integração.

Samuel Jaberg, swissinfo.ch
Adaptação: Fernando Hirschy

Tags:
Edições digital e impressa