Pilar del Río passou a fazer esquina com José Saramago. A Azinhaga, cidade natal do Nobel da Literatura, decidiu dedicar uma rua à musa espanhola do escritor, adotando-a também como filha da terra.
– Se ela vem dali e eu daqui e nos cruzamos, faz de conta que é outro casamento – disse José Saramago, lembrando que, depois do casamento em Lisboa, em 1998, o casal voltou a se casar em 2007, em Castril (Granada, Espanha), terra natal de Pilar del Río.
O escritor falava na cerimônia em que sua mulher foi nomeada filha adotiva da Azinhaga “pela divulgação que tem feito desta terra em todos os cantos do mundo” e por ter sido a responsável pela reaproximação de Saramago à sua aldeia natal, frisou o prefeito, Vítor Guia.
Agora, o nome de Pilar fica escrito na antiga Rua da Estação, que passa em frente à Prefeitura da Azinhaga, se cruzando com a rua que, em 1987, recebeu o nome do escritor.
A placa, de azulejos, com ornamento em amarelo, exibe o nome de Pilar del Río seguido da citação constante no livro Pequenas Memórias:
– A Pilar que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.
Pilar, que recebeu uma réplica da placa, desejou que "todos os enamorados do mundo se encontrem e dêem um beijo nesta esquina".
Azinhaga quis repetir neste sábado as honras com que festejou, há um ano, os 84 anos de Saramago. A povoação saiu à rua para acompanhar a cerimônia, que começou na Prefeitura e prosseguiu na Rua Pilar del Río, no miradouro, na Praça Central e no jantar ao ar livre.
– A terra onde se nasce pode tornar-se indiferente ou alheia, mas tive sorte. Deveu-se também a Pilar – disse Saramago.
Sentado à mesa que ladeia a cama que foi de seus avós, colocada no andar superior da casa que acolhe a fundação, Saramago olhou para os trechos de seu discurso na Academia Nobel, colocados na parede, e recordou o episódio que esteve na origem do seu sobrenome.
– Creio que é o único caso na história da humanidade em que o filho deu o nome ao pai – disse, recordando que foi o funcionário do cartório, de nome Silvino, que juntou Saramago a José de Sousa, “erro” que fez com que, anos mais tarde, seu pai tivesse sentido necessidade de adotar o mesmo sobrenome que o filho.
A sede da Fundação José Saramago, presidida pela mulher do escritor, é partilhada pelas cidades de Lisboa e Lanzarote (Espanha), onde Saramago vive desde 1993, e, além da Azinhaga, terá outro pólo em Castril, terra de Pilar.