O Banco Central Suíço (BNS) tomou terça-feira (06) uma medida histórica contra a valorização do franco suíço, que prejudica as empresas exportadoras e o turismo.
O BNS decidiu fixar uma taxa de câmbio mínima de 1,20 franco por um euro. A decisão é saudada por unanidade pela classe política e por especialistas.
O Banco Central Suíço (BNS) não vai mais tolerar uma taxa de câmbio inferior no mercado, anunciou a instituição terça-feira (06), através de um comunicado. Ela fará respeitar esse limite mínimo “com toda a determinação necessária” e está disposta a comprar divisas em quantidade ilimitada. O BNS recorre assim a uma medida extremamente rara, que ela havia utilizado uma única vez, em 1978, para conter a alta do franco frente ao marco alemão.
O Banco Central julga que a sobrevalorização atual do franco é extrema e constitui uma grave ameaça para a economia suíça. O fenômeno comporta inclusive riscos de deflação.
O efeito desse anúncio foi rápido nos mercados: o euro subiu rapidamente até 1,2161 franco, enquanto segunda-feira a cotação estava em 1,10 fraco. Por volta de meio dia, estava a 1,2021 franco.
O BNS, que visa uma desvalorização “substancial e durável” da moeda suíça, admite que a 1,20 por um euro, ainda é muito caro. O Banco Central adverte que tomará medidas adicionais se as perspectivas econômicas e os riscos de deflação persistirem.
Trata-se, portanto, de uma escala superior na estratégia do BNS, que havia anunciado em agosto vários aumentos de liquidez no circuito econômico. Essa injeção deveria pressionar a queda das taxas de juros para enfraquecer o franco.
Deu certo inicialmente. Depois de quase ter chegado à paridade com o euro, o franco caiu de quase 20%. Mas desde terça-feira passada, a moeda suíça se valorizou novamente.
O fato desestimula as empresas suíças cuja rentabilidade é afetada pelo impacto do câmbio e que lutam há meses para resistir. As exportações e o Produto Interno Bruto (PIB) mantiveram uma tendência de alta até junho, mas a se inverteu em julho e agosto.
A indústria e o turismo são particularmente afetados, com expectativa de balanço no vermelho para algumas empresas.
Os economistas preveem queda do crescimento nos próximos trimestres até tornar-se nula e a hipótese de uma recessão na Suíça no ano que vem não é mais tabu. Os sindicatos temem o aumento do desemprego.
Como as precedentes medidas do BNS – portanto drásticas – não foram suficientes para reverter a tendência. A fixação de uma taxa de câmbio mínima deve satisfazer os atores econômicos e políticos que eram numerosos a pedir essa decisão. A taxa escolhida, a 1,20 franco por um euro, é inferior ao que as empresas sonhavam. Segundo especialistas, o câmbio ideal seria de aproximadamente 1,30 franco, mas 1,20 é menos desastrado do que a paridade.
A intervenção do BNS foi bem acolhida por unanimidade pela classe política, a pouco mais de uma mês das eleições. “Estou satisfeito com a decisão”, declarou o ministro da Economia, Johann Schneider-Ammann, sublinhando que a medida trazia segurança e alívio.
Para o Partido Socialista (PS), o fato que o BNS esta disposto a comprar divisas em quantidade ilimitada é um sinal claro contra as especulações do franco “absurdamente valorizado”. O Partido do Povo Suíço (SVP na sigla em alemão), espera que o Banco Central cumpra o objetivo que fixou.
O Partido Democrata Cristão (PDC, centro direita) também apoia o BNS e estima que é preciso estreitar mais as relações com os países que têm problemas similares aos da Suíça como o Brasil, a China, o Canadá e a Austrália.
Quando ao Partido Liberal Radical (PLR, direita), ele era cético quanto à fixação de uma cotação fixa, lembra o porta-voz Noé Blancpain. Mas o ministro do ministro da Economia Johann Schneider-Ammann confia na decisão do BNS, que é independente.
Thomas Flury, economista no banco UBS, considera a decisão deverá ter mais efeito do que simplesmente inundar o mercado de francos suíços, como foi o caso da medida precedente. “Traçar uma linha clara é uma decisão mais fácil de defender do que vagos comentários sem ponto de referência”, disse à swissinfo.ch
Referindo-se às perdas registradas pelo BNS em 2009 e 2010 com a compra massiva de euros, Thomas Flury diz esperar que o Banco Central coloque novamente a mão no bolso a curto prazo. “O BNS deverá provavelmente não apenas falar, mas investir dinheiro para demonstrar que, quando o euro cai devido mudanças políticas, o franco também pode cair.”
Bernard Lambert, economista no banco Pictet, declarou à agência AFP que “é uma arma atômica. O BNS pode imprimir francos suíços como quiser para comprar euros. É uma medida muito forte”. Fixar uma taxa de câmbio pode fazer com que, temem alguns, os especuladores apostem contra o Banco Central. David Kohl, do banco Julius Bär, diz ter avisado seus clientes quanto aos riscos desse jogo. “O BNS pode se defender contra uma valorização porque pode imprimir quantos francos suíços ele quiser.”
swissinfo.ch com agências