Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Um esquecido nos estudos de mídia no Brasil

Por Venício Lima - Texto preparado para apresentação no ciclo de debates “A Multiplicidade de Stuart Hall” realizado pelo Centro de Pesquisa e Formação, SESC São Paulo, em 6 de fevereiro de 2015, título original “O Stuart Hall ‘esquecido’: estudos de mídia no Brasil”.

Domingo, 15 de Fevereiro de 2015 às 10:02, por: CdB

Texto preparado para apresentação no ciclo de debates “A Multiplicidade de Stuart Hall” realizado pelo Centro de Pesquisa e Formação, SESC São Paulo, em 6 de fevereiro de 2015, título original “O Stuart Hall ‘esquecido’: estudos de mídia no Brasil”. O A. agradece às professoras Sylvia Moretzsohn (UFF) e Ana Paola Amorim (FUMEC/BH) e ao professor Juarez Guimarães (UFMG) pelos comentários e sugestões, e a Zildete Melo pela leitura vigilante em relação à correção gramatical do texto. “Viver a política é diferente de ser abstratamente a favor dela.” Stuart Hall (1996) Rep/Web Introducing the Forgotten Stuart Hall: His Early Work (Introduzindo o Stuart Hall Esquecido: seus primeiros trabalhos): este é o título que o professor britânico James Curran deu à sua apresentação no seminário internacional realizado em memória de Stuart Hall (1932-2014) no Goldsmiths College da Universidade de Londres, em novembro de 2014. (O programa completo da “Stuart Hall International Conference: Conversations, Projects and Legacies”. Curran argumentou convincentemente que a grande repercussão alcançada pela produção teórica sobre etnicidade e multiculturalismo do Stuart Hall maduro fez com que se subestimasse o valor de seus primeiros textos. A exceção seria o conhecido Encoding and Decoding in TV Discourse, cuja publicação original é de 1973. Em sua apresentação, ele escolheu falar sobre dois desses trabalhos iniciais, ambos livros em coautoria: The Popular Arts, de 1964 e Policing the Crisis, de 1978. Dedicados às questões sobre cultura de massa (popular culture) e sobre o poder ideológico da mídia, são anteriores à década de 1990 quando Hall “desloca” sua atenção, sobretudo, para os estudos ligados à raça e à etnia. Liv Sovik (2010, p. 2), reconhecida especialista no pensamento de Stuart Hall, afirma que “a partir dos anos 90, a questão do racismo e da diáspora, sobretudo a africana no Novo Mundo e, em um segundo movimento, na Europa (é central para a produção de Hall)”. Ele próprio comentou que esse “deslocamento”, no qual “as questões críticas de raça, a política racial, a resistência ao racismo, questões críticas da política cultural (foram colocadas na agenda dos Estudos Culturais), representou uma virada decisiva no[seu]trabalho intelectual e teórico” [Stuart Hall, “Estudos Culturais e seu legado teórico” inDa Diáspora, p.210]. Consideradas as circunstâncias de seu tempo, afirma Curran, os trabalhos iniciais anteriores à “virada intelectual” de que fala Hall, mudaram o rumo das reflexões sobre a mídia na Inglaterra, tanto na academia quanto no debate público. Entre nós, no mais recente dicionário acadêmico de comunicação (Dicionário de Comunicação – Escolas, Teorias e Autores, 2014), apesar de citado nos verbetes dedicados a dois autores (Raymond Williams e Guilhermo Orozco), a cinco teorias (Estudos de mídia/Televisão, Estudos de recepção e audiência, Marxismo e comunicação, Práticas de pertencimento em comunicação e Tendências de estudo em comunicação) e a uma escola (Estudos culturais ingleses), Stuart Hall não mereceu um verbete para si próprio. Poderia o argumento de James Curran sobre “o Stuart Hall esquecido” servir de ponto de partida também para uma avaliação de sua influência nos estudos de mídia no Brasil? 1. As traduções de Stuart Hall no Brasil Um pressuposto para que a influência de um autor estrangeiro se dissemine é que seu trabalho esteja disponível no idioma de seus eventuais leitores. Vamos começar, portanto, pelas traduções de Stuart Hall. Registro inicialmente que, embora a Editora Zahar tenha publicado há 35 anos (1980), sem maiores repercussões, a coletânea Da Ideologia –que inclui um ensaio escrito por Stuart Hall [“O interior da ciência: ideologia e a ‘sociologia do conhecimento’”] e outro que ele assina coletivamente [“Política e Ideologia: Gramsci”] –, só depois dos 90 começam a circular traduções de seus textos mais importantes no Brasil. A primeira tradução de peso nos chegou via Portugal, em obra de referência sobre jornalismo, organizada por Nelson Traquina – Jornalismo: Questões, Teorias e “Estórias” – publicada em Lisboa, em 1993 e com ampla circulação nos nossos cursos de Comunicação. Nela estava incluído o terceiro capítulo do Policing the Crisis: “A produção social das notícias: o ‘mugging’ nos mídia”. Quatro anos depois, em 1997, aparece o livroIdentidades Culturais na Pós-Modernidade da DP&A Editora, um ensaio sobre a crise de identidades no contexto da globalização do final do século 20. E, somente em 2003, após a visita de Stuart Hall ao Brasil para participar de um congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada, realizado na Bahia, em julho de 2000, surge a coletânea organizada por Liv Sovik, Da Diáspora – Identidades e Mediações Culturais. (Pelo menos dois outros textos “menores” de Stuart Hall foram traduzidos no Brasil: “O papel dos programas culturais na televisão britânica” (1972) e “A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções de nosso tempo” (1997). Registre-se também que a tradução de “Estudos Culturais e seu legado teórico”, que aparece em Da Diáspora (2003), havia sido anteriormente publicada na Revista de Comunicação e Linguagens, nº 28, outubro de 2000, Lisboa. Desconheço outras traduções de Hall eventualmente existentes para a língua portuguesa, publicadas e com circulação em Portugal.) Das três traduções mencionadas, a primeira – “A produção social das notícias” – pertence à fase do Stuart Hall “esquecido”. O livro sobre Identidades Culturais na Pós-Modernidadejá se inclui no “deslocamento” para as questões sobre raça e etnia. Quanto à coletânea organizada por Liv Sovik – a mais relevante publicação no Brasil – apesar de contemplar um amplo espectro da produção intelectual de Hall, tanto cronológica quanto tematicamente, no seu próprio título – Da Diáspora, Identidades e Mediações Culturais – já indica alinhamento prioritário com as questões associadas à etnicidade e ao multiculturalismo. Da Diáspora reúne doze ensaios e duas entrevistas, publicados/realizadas ao longo de um período de 20 anos (1980 a 2000) e é organizada em quatro partes: Controvérsias; Marcos para os Estudos Culturais; Teoria da Recepção e Stuart Hall por Stuart Hall. Embora os textos estejam divididos igualmente entre anteriores e posteriores a 1990 (sete de cada período), certamente não se trata de uma coletânea orientada para os estudos de mídia. Como explica Liv Sovik na Apresentação da coletânea, datada de outubro de 2002: Estes doze ensaios e as duas entrevistas são publicados em uma conjuntura específica no Brasil. A identidade racial brasileira e as formas brasileiras de racismo estão no centro do debate político-cultural. Estão nos discursos dos meios de comunicação e nos produtos culturais de massa, em pronunciamentos oficiais e nas universidades, onde a propensão a estudar as tendências sociais como se fossem externas foi interrompida pela proposta de cotas para alunos negros nas universidades, feita por diversas instâncias de governo. As políticas federais para a educação superior vêm provocando um debate sobre o lugar social e institucional do trabalho intelectual, sobre o qual Stuart Hall tem tanto a dizer. A seleção dos textos foi influenciada por essa conjuntura política, cultural e acadêmica e também pela preocupação em apresentar boas traduções de textos já consagrados ou mais recentes, relacionados a esse e outros temas atuais – políticas culturais democráticas, por exemplo. Vale lembrar que, em outubro de 2002, a “conjuntura política” brasileira era dominada pela realização de eleição para a presidência da República (decidida em dois turnos, nos dias 6 e 27) e havia grande expectativa em torno da possibilidade de ser eleito, pela primeira vez na nossa história política, um operário de origem racial mestiça, migrante nordestino. Ademais, a eventual eleição de Luiz Inácio Lula da Silva trazia a esperança, para movimentos sociais historicamente comprometidos com a democratização da mídia, de que a regulamentação das normas e princípios relativos aos meios de comunicação, consagrados pela Constituição Federal de 1988, e a implementação de políticas públicas democráticas para o setor poderiam ser, finalmente, alcançadas. Todavia, apesar de datada de outubro de 2002 e apesar de reconhecer-se “influenciada (pela) conjuntura política, cultural e acadêmica”, a Apresentação de Da Diáspora não mencionaestes fatos e, portanto, omite-se em relação à eventual contribuição que a leitura de Stuart Hall poderia oferecer especificamente para o debate público deles e para os estudos de mídia. Salvo, portanto, o terceiro capítulo do Policing the Crisis, que nos chega via Portugal, as principais traduções disponíveis até hoje no Brasil, nos remetem, prioritariamente, para o Stuart Hall posterior à “virada decisiva no (seu) trabalho intelectual e teórico”,no rumo das questões de etnicidadade e do multiculturalismo.   Venício Lima, é professor Titular de Ciência Política e Comunicação da UnB.

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