Rio de Janeiro, 29 de Setembro de 2026

Um documentário para revelar os mistérios de Toscanini

Sexta, 15 de Julho de 2011 às 20:53, por: CdB

Um documentário da Televisão Suíça Italiana (TSI) apresenta o maestro italiano Arturo Toscanini em imagens caseiras, inéditas na mídia. E mergulha no universo familiar do venerado maestro na Suíça, na Itália e nos Estados Unidos.

Um documentário da Televisão Suíça Italiana (TSI) apresenta o maestro italiano Arturo Toscanini, em imagens caseiras, inéditas na mídia. E mergulha no universo familiar do venerado maestro na Suíça, na Itália e nos Estados Unidos.

O documentário "Toscanini Inédito, Recordações e Imagens Jamais Vistas" exibe ao telespectador o maestro no papel de pai, marido e avô da sua família. E nem de longe ele lembra o perfeccionista que perseguia os músicos que erravam uma nota ou aterrorizava os sopranos e barítonos que desafinavam. Ao contrário, em família ele era amável, cordial, paciente e atencioso. E tudo registrado com cenas gravadas pelo filho Walter Toscanini.

O filme tem uma hora de duração e foi produzido ao longo dos últimos 12 meses pela Televisão Suíça Italiana. Ele foi realizado pelo diretor Fabio Calvi e pela jornalista Nicoletta Gemnetti. A equipe viajou pela Itália, pelos Estados Unidos e Suíça em busca de pessoas que conviveram intimamente com o grande maestro italiano, morto 51 anos atrás. A maior parte do material apurado foi pesquisado e retirado do arquivo da família, através dos netos de Toscanini, Emanuela de Castelbarco, filha de Wally, e Walfredo, filho de Walter. No documentário eles relatam as suas lembranças e contam como o avo era um homem afetuoso.

Obsessões de um artista

O maestro costumava a ler as partituras como um padre pode ler as sagradas escrituras. Na obsessão de interpretar e executar as notas musicais com reverência e lealdade ao compositor era deixada de lado quando Arturo Toscanini ia embora do teatro para casa. Lá dentro, Tosca, como era chamado pela mulher, se tornava um ser humano normal. Muitas cenas mostram o maestro caminhando na praia, brincando no jardim de casa e tocando piano num sarau familiar.

"Impressionou-me descobrir através deste documentário que Arturo Toscanini era um homem como outro qualquer. E a sua grandiosidade diante de uma orquestra, ao limite do tolerável pelo rigor, era transferido para a família, para os netos de forma mais humana", contou a swissinfo Fabio Calvi, durante a apresentação do documentário no Centro Cultural do Consulado da Suíça em Milão. "A coisa mais difícil, talvez, tenha sido a tentativa de dar esta dimensão familiar de Toscanini, e tentar não se deixar fascinar pela música e pela profissionalidade do maestro."

Para traçar o retrato íntimo de Arturo Toscanini, Fabio Calvi e Nicoletta Gemnetti, entrevistaram historiadores, biógrafos, diretores de teatros, além de personagens que, de uma forma ou de outra, foram marcados pelo encontro com o maestro. E o território helvético foi fértil para o nascimento de histórias que até hoje são contadas por quem as viveu em primeira pessoa.

Arturo Toscanini faleceu em 1957 aos 89 anos. (Keystone)

Testemunhos oculares

Em Lugano, foi encontrada a soprano Anne Rogosin. Ela tinha sido descoberta pelo maestro Arturo Toscanini e, em 1946, viajou para uma temporada de ópera lírica em Nova York. No Cantão Vaud (oeste), os jornalistas acharam Elizabeth, a viúva do maestro alemão Wilhelm Furtwaengler - "contraponto" germânico do italiano Toscanini - quase centenária, mas como uma memória muito viva. Porém, foi em Lucerna que a semente plantada pelo maestro italiano deu mais frutos e continua dando ate hoje.

Em 1938 sopravam os ventos da guerra na Europa. Toscanini era antifascista e antinazista. Fiel aos seus princípios, ele se recusou a participar de festivais de música na Áustria e na Alemanha. Assim, Lucerna, na neutra Suíça, acabou sendo a opção do maestro quando aceitou o convite para criar um festival, hoje famoso no mundo inteiro. Arturo Toscanini não cobrou nada, mas fez questão de ganhar a hospedagem para toda a família e mais 140 ingressos grátis para os seus amigos.

Em Lucerna a equipe do documentário conheceu Roberto Zurflu. Ancião, ele lembra quando se encarregava de completar a ligação telefônica entre a Suíça e a Itália. Naquela época o telefonema internacional não era automático e era necessário marcar a hora e passar pela operadora antes de falar com quem estava do outro lado da linha.

Agradecimento

Nicola Gemnetti conta que o festival de música de Lucerna existe graças ao maestro Arturo Toscanini e à aversão que tinha pelos regimes que privam a liberdade do indivíduo. "Ele fundou o festival de Lucerna, conhecido em todo o mundo. Foi um pouco por acaso. Toscanini era antifascista e antinazista e se recusou em ir aos festivais de Salzburgo, na Áustria, e de Bayreuth, na Alemanha, em homenagem a Wagner. Ele aceitou o convite de uma cidade, Lucerna, que queria fazer do festival uma promoção turística e ali nasceu tudo", conta ela à swissinfo.

Hoje o festival é um importante cartão de visitas para Lucerna, como foi na época do maestro. Fabio Calvi, diretor do documentário lembra que nem tudo eram flores na cidade suíça. "Esta aura que circula ainda sobre Lucerna, de ter sido uma ilha feliz em meio à tormenta do nazifascismo não é verdadeira. Conversando com os historiadores vimos que a orquestra do teatro La Scala participou do festival de 1942. Mas foi, sem dúvida, graças ao maestro Toscanini que nasceu uma tradição ate hoje é muito viva", explicou ele.

swissinfo, Guilherme Aquino, de Milão

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