Rio de Janeiro, 30 de Abril de 2026

Um debate interditado

Por Marco Aurélio Weissheimer - O professor de filosofia da USP, Paulo Arantes, conta que certa vez sua empregada perguntou por que assinava dois jornais se ambos diziam a mesma coisa. Olhando o modo como a mídia trata o debate econômico, essa pergunta é mais pertinente ainda. (Leia Mais)

Quarta, 23 de Novembro de 2005 às 12:31, por: CdB

"A política econômica transcende os interesses dos partidos e até das próprias administrações, não podendo por isso subordinar-se a fatores que não sejam os do interesse público". A frase é do editorial do jornal Zero Hora, desta quarta-feira, intitulado "Sem aventuras", que faz a defesa da gestão do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e adverte para os "riscos" que estariam contidos na disposição do presidente Lula de investir em infra-estrutura boa parte dos R$ 10 bilhões que o governo arrecadou acima da meta do superávit primário (4,25%).

"Trata-se de uma decisão que, mesmo interessando profundamente ao país, é tomada num momento político perigoso, às vésperas de um processo eleitoral", diz ainda o editorial, lembrando "o fracasso do Plano Cruzado, que não foi mudado para evitar riscos eleitorais e que, por isso, acabou pondo suas conquistas a perder". "A eleição foi ganha, mas o governo perdeu-se e o Plano Cruzado afundou", acrescenta o texto.

A escolha do exemplo é curiosa. O editorial poderia ter citado um caso mais recente de política que não foi mudada "para evitar riscos eleitorais". No final de seu primeiro mandato, Fernando Henrique Cardoso manteve a política de sobrevalorização artificial do real, que só foi modificada após ele ter garantida sua reeleição. Aliás, Pedro Parente, atual vice-presidente executivo do Grupo RBS (ao qual pertence o jornal Zero Hora), conhece de perto os mecanismos dessa aventura, como ex-integrante da cúpula do governo FHC. Os editorialistas do jornal gaúcho poderiam consultá-lo também sobre os riscos de "aventuras" na economia. No caso do governo Lula, a aventura seria "investir em infra-estrutura boa parte dos R$ 10 bilhões que o governo arrecadou acima da meta do superávit primário". Essa intenção, segundo o jornal gaúcho, ao mesmo tempo "interessa profundamente ao país" como representa uma ameaça ao "interesse público".

Esquizofrenia editorial

A posição expressa no referido editorial não é exclusividade do jornal gaúcho. Em sua esmagadora maioria, os principais veículos de comunicação do país reproduzem, com diferentes inflexões, o mesmo discurso. Qualquer menção à possibilidade de uma mínima alteração nos rumos da atual política econômica é bombardeada com artigos, editoriais e matérias alertando para os riscos de uma "aventura populista". O que é mais incrível é que esses mesmos veículos, ao mesmo tempo, publicam artigos, matérias e editoriais criticando a situação das estradas, denunciando as precariedades do sistema público de saúde, o caos na segurança pública, a falta de investimentos em vigilância sanitária, os baixos salários dos professores, etc. A desconexão entre os dois temas é total, alimentando uma esquizofrenia editorial. O que é total também é a interdição de qualquer possibilidade de debate sério sobre política econômica. Nas gavetas da mídia, há sempre uma espada pronta para cair no pescoço de quem pretenda contestar o suposto caráter sagrado do atual modelo.

O professor de filosofia da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Arantes, conta que certa vez sua empregada perguntou por que assinava dois jornais se ambos diziam a mesma coisa. Em relação à política econômica, essa pergunta é mais pertinente ainda. Os boatos em torno de uma suposta saída de Antônio Palocci do Ministério da Fazenda foram tratados com o mesmo tom editorial pela imensa maioria da mídia. Diante da reação contrária do mercado, o presidente Lula teria voltado atrás e aceitado a proposta de Palocci de aumentar ainda mais os níveis de superávit primário, contrariando assim a posição da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, contrária a esse aumento. A semelhança de tratamento editorial sobre esse e outros temas não parece ser uma coincidência. O que ela revela, sobretudo, é a fonte teórica e ideológica que alimenta os editoriais da grande mídia, que, a cada diz, fortalece sua condição de cão de guarda dos "interesses do merca

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