Rio de Janeiro, 23 de Maio de 2026

Um <i>bendito fruto</i> do cinema em casa

Sem nenhum vacilo pode-se dizer que Bendito fruto talvez fosse melhor vendido como um telefilme. Sem dúvida foi produzido com a mentalidade de uma atração televisiva. Dirigido também. Mas digamos que não ficou tão feio na tela. Se assistir a filmes em casa, na TV, está cada vez mais próximo de uma sessão de cinema, Bendito fruto é uma produção cinematográfica que comprova isso. Fica bem em casa, fica bem no cinema. (Leia Mais)

Segunda, 06 de Junho de 2005 às 08:07, por: CdB

O Arteplex já foi devidamente apresentado aos leitores dessa coluna. O novo complexo de cinemas na praia de Botafogo (6 salas, som THX, novidade total) veio pra mostrar que veio pra ficar. Nem que para isso exiba a cópia restaurada de Terra em transe, filme-tese de Glauber Rocha, ao lado de Star Wars 3 - A vingança dos Sith, o último capítulo da saga bilionária de George Lucas. O arte e o plex de mãos dadas, levando públicos opostos ao mesmo ambiente. Mas o filme que de fato abriu a casa foi Bendito fruto, comédia carioca dirigida por Sérgio Goldenberg.
 
A pré-estréia da fita foi a primeira sessão oficial do Arteplex (na manhã seguinte se deu a cabine de imprensa de Star Wars, que pode ser lida - junto com a apresentação do espaço - no texto Star Wars é Guerra nas estrelas).
 
Além do Arteplex, Bendito fruto foi lançado no Rio em outras sete salas, ou seja, oito cópias. No elenco temos atores já conhecidos de novelas da Globo (o que não significa que seja uma produção assinada pela Globo Filmes - o leitor mais atento já deve ter se dado conta disso pelo número de cópias da fita). Vera Holtz, sempre ótima, Otávio Augusto, um bufão carismático, Zezeh Barbosa, Camila Pitanga, Eduardo Moscóvis e Lúcia Alves tornam Bendito Fruto um delicioso exercício de típica produção cinematográfica para as massas. Sem contudo, perder um discreto charme de ser um filme renegado.
 
Claro que é uma obra renegada, mas isso virá mais à frente. Essa comédia que se passa em três bairros: Botafogo, Lagoa e um ambiente que vamos genericamente denominar de favela (seja ele qual for - é a única área que não é mencionada pelos personagens, diferentemente dos dois bairros citados acima) é um produto experto da sintonia cinema/ TV.
 
Sem nenhum vacilo pode-se dizer que Bendito fruto talvez fosse melhor vendido como um telefilme. Sem dúvida foi produzido com a mentalidade de uma atração televisiva. Dirigido também. Mas digamos que não ficou tão feio na tela. Se assistir a filmes em casa, na TV, está cada vez mais próximo de uma sessão de cinema (o home theatre se populariza com o som surround enquanto as telas dos cinemas diminuem e o som vira THX), Bendito fruto é uma produção cinematográfica que comprova isso. Fica bem em casa, fica bem no cinema.
 
Questão de sobrevivência
 
Por que nos últimos anos o debate cinema/ TV ganhou tanto fôlego no cinema brasileiro? Um monte de gente diz que o cinema brasileiro está se diluindo em uma fórmula exclusivamente televisiva. Acusam a Globo Filmes como o vilão por trás da coisa toda. Fica uma coisa até meio maniqueísta de dizer que o filme de arte tenta manter a honra do cinema brasileiro em circuitos mais restritos enquanto os filmes-fórmula da Globo Filmes fazem co-produções com majors e faturam milhões. De fato é o que acontece. Se um brasileiro vai ao cinema assistir a Avassaladoras (Mara Mourão), Viva voz (Paulo Morelli) ou Amores possíveis (Sandra Werneck), sai exatamente do mesmo jeito. Do mesmo jeito que estaria se estivesse em casa, saindo da sala para a cozinha. Bendito fruto não é da Globo, mas podia facilmente ter sido. Isso só torna o papo mais estimulante.
 
 
a) os exibidores
 
Para isso, essa dormência causada no público que sempre o faz voltar aos cinemas, os exibidores mais safos já sacaram que filmes são um atestado de obviedade. Para fazer o cidadão sair da poltrona e ir até a sala de projeção, pagar ingresso e, quem sabe, consumir um saco de pipoca, é preciso fazer senti-lo em casa, de preferência em sua própria poltrona. Daí a revolução que se viu nos últimos anos, na maneira em oferecer salas de projeção. Cadeiras reclináveis, porta copos... comodidade total, uma anestesiada na possibilidade se deparar com um mal filme. E isso porque esses exibidores não faz

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