Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2026

Um ano depois, Blair ainda sofre com suicídio de Kelly

Sábado, 17 de Julho de 2004 às 07:53, por: CdB

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, continua sem convencer a opinião pública sobre sua decisão de ir à guerra do Iraque, ao se cumprir neste sábado um ano do suicídio do cientista David Kelly, fonte de uma polêmica notícia da BBC sobre o Iraque.

Há um ano, Kelly, um homem de caráter discreto e reservado que trabalhava como especialista em armamentos para o Ministério da Defesa do Reino Unido, saiu de sua casa em Oxfordshire (sul da Inglaterra) para dar um passeio, mas não retornou.

Entre as 4.15 da tarde e 1.15 da madrugada (horário local), o cientista, de 53 anos, suicidou-se perto de sua casa.

Kelly se matou depois que o Ministério da Defesa o identificou como a fonte de uma notícia da cadeia pública BBC que acusou o governo britânico de "exagerar" nas provas sobre a ameaça de armamentos do Iraque para justificar a invasão desse país.

Além de uma tragédia pessoal, a morte de Kelly, que comoveu a classe política britânica, transformou-se em um símbolo que injetou uma nova dimensão moral ao agitado debate nacional sobre a participação do Reino Unido na guerra do Iraque.

Desde então, Blair não se recuperou e sua popularidade caiu rapidamente, segundo refletem o voto de castigo dos eleitores em várias eleições realizadas recentemente nesse país e as pesquisas divulgadas pela imprensa britânica.
Depois da derrota sofrida nas eleições locais e européias de junho, o Partido Trabalhista de Blair perdeu nesta quinta-feira uma cadeira parlamentar nas eleições parciais realizadas em Leicester South (centro da Inglaterra), feudo do trabalhismo durante cinco décadas.

A cadeira passou às mãos de um candidato dos liberal-democratas (terceiro partido do país), cujo líder, Charles Kennedy, se caracterizou por sua firme oposição à guerra.

"O Iraque foi um fator importante, mas também é simbólica a falta de confiança em Tony Blair", declarou Kennedy ao explicar o êxito de sua formação.

Além disso, uma pesquisa feita pela empresa ICM entre os dias 14 e 15 de julho e divulgada nesta sexta-feira pela BBC indica que 56 por cento dos 1.008 adultos entrevistados não estão satisfeitos com o governo de Blair.

Apesar de ser certo que o primeiro-ministro saiu ileso de duas investigações independentes relativas à manipulação de dados para reforçar a necessidade de derrubar o ex-líder iraquiano Saddam Hussein, muitos acham que ambos os processos foram de fachada.

Nesta quarta-feira, a indagação dirigida pelo lorde Butler sobre os erros dos serviços secretos britânicos criticou o estilo do governo de Blair, mas concluiu que o governante trabalhista não atuou "de má fé".

Em janeiro, a investigação liderada pelo juiz Brian Hutton sobre as circunstâncias da morte de David Kelly também desculpou o chefe do Executivo e censurou duramente a BBC, cuja polêmica informação sobre o Iraque foi descrita como "infundada".

A notícia da cadeia pública aludia, concretamente, ao famoso relatório divulgado em setembro de 2002 ante o Parlamento pelo próprio Blair, que advertia que o Iraque tinha capacidade para usar armas químicas e biológicas em 45 minutos.

Segundo as notas tomadas pelo jornalista da BBC Andrew Gilligan, autor da controversa informação, Kelly lhe disse que o dossiê governamental "foi transformado uma semana antes de sua publicação para torná-lo mais atrativo".

Dado que os arsenais iraquianos ainda não foram descobertos, o primeiro-ministro admitiu há três dias ante a Câmara dos Comuns que parece "cada vez mais claro" que Saddam Hussein poderia não dispor de armas de destruição em massa prontas para serem utilizadas.

Com a finalidade de espantar o "fantasma" do Iraque e dar um novo impulso a seu desgastado governo, Blair tem previsto remodelar seu Gabinete na próxima semana, uma mudança que poderia ser anunciada na quarta-feira, quando cumpre dez anos como chefe do Partido Trabalhista.

Tags:
Edições digital e impressa