Depois de enviar cerca de 500 militares brasileiros ao Timor Leste nos últimos quatro anos, o Brasil chega à etapa final da sua missão de paz na pequena ilha do arquipélago malaio. Com outras 13 nações, o Brasil participa da Força de Paz que estabilizou o país desde o fim da guerra pela independência, encerrada em 1999, após um sangrento período de disputa entre timorenses e indonésios que não aceitavam a emancipação.
O apoio policial às tropas de outros países é a maior missão dos soldados brasileiros: eles controlam o trânsito e fazem a guarda de comboios de alimentos e de tropas internacionais, entre outras tarefas. Os 49 soldados do Quarto Batalhão da Polícia do Exército do Recife que viajam no final de outubro devem ficar no Timor até o final da missão internacional de paz das Nações Unidas, que se encerra em julho de 2004. Na fase preparatória da viagem, eles têm aulas de História e aprendem sobre acordos internacionais, como a Convenção de Genebra. Nesta semana começa a fase prática do curso, quando os soldados recebem instruções da Cruz Vermelha Internacional sobre tratamento de refugiados e sobre as condições adversas de trabalho num país desolado pela miséria.
Apesar de o território desconhecido ficar no outro lado do mundo, os soldados reconhecem as semelhanças entre os dois povos: as maiores são o clima quente e o idioma português, já esquecido por boa parte da população, especialmente pelos mais jovens, que falam Tétum e bahasa indonésio. O Timor Leste foi colonizado por Portugal, portanto os mais velhos aprenderam o idioma. De 1975 a 1999, contudo, o país esteve anexado à Indonésia, o que fez muita gente esquecer o português.
O capitão José Abinoan de Sousa Filho, comandante da décima e última missão brasileira no Timor, foi ao país recentemente para uma missão de reconhecimento e tirou cerca de 300 fotos, para ir se acostumando com a nova casa. A saudade da mulher, de quem vai ficar separado por quase um ano, é em parte trocada pela empolgação de poder ensinar capoeira e português às crianças de uma escola adotada pela tropa brasileira desde o início da missão de paz. "O Timor Leste integra a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e, por isso, as crianças precisam aprender a língua oficial do país e a cultura dos povos da comunidade", avalia.
O relacionamento com as 250 crianças da escola tornou rápida a aproximação dos brasileiros da comunidade de ex-refugiados e ex-combatentes, que também recebem cursos profissionalizantes de carpintaria, costura e encanamento do Serviço Nacional da Indústria (Senai).
Segundo o comandante Abinoan, os brasileiros são especialmente queridos pelos timorenses, entre mais de cinco mil militares de outras nações. "Boa parte dessa simpatia foi conquistada pelo brasileiro Sérgio Vieira de Mello, funcionário da ONU morto no atentado de Bagdá. Ele administrou o Timor na fase de transição do governo", lembra.
Cenário de guerra
O último grupo militar que vai à ilha encontrará um país em franca recuperação e bem diferente do Timor Leste encarado pela primeira tropa que chegou imediatamente após o conflito entre as forças pró-indonésias e os independencistas. Nessa época mais difícil, quando era preciso impor a paz a qualquer custo, o Brasil enviou um grupo da Polícia do Exército de Brasília.
Um dos integrantes da primeira missão foi o sargento José Flávio Rocha, que lembra as dificuldades. "O país estava vazio. A população civil havia fugido dos conflitos e só depois esses refugiados começaram a voltar. Não tinha sequer um supermercado em Díli. A pobreza era absoluta", recorda-se.
Rocha acredita que a missão tenha sido uma das mais importantes da sua vida. "Levar a bandeira brasileira a um lugar tão distante é motivo de orgulho e honra para qualquer integrante das forças armadas brasileiras", afirma o sargento.
Última tropa de paz brasileira seugue para Timor Leste
Sexta, 05 de Setembro de 2003 às 11:31, por: CdB