Rio de Janeiro, 01 de Novembro de 2026

Uerj analisa gelo que expedição coletou na Antártica

Segunda, 05 de Maio de 2008 às 10:44, por: CdB

Uma equipe do Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) participou de uma expedição à Antártica, concluída no início deste ano, que coletou o maior testemunho de gelo (cilindros de gelo retirados do manto polar) já extraído por sul-americanos da Península Antártica, com 133 metros. Parte do material chegou ao Brasil na última semana e será analisado na Uerj. A expedição foi realizada em cooperação com Chile e Estados Unidos.

O testemunho de gelo tem cerca de sete centímetros de diâmetro e é retirado longitudinalmente a partir da superfície. A amostra possibilitará o estudo das mudanças na atmosfera nos últimos 200 anos, auxiliando pesquisas sobre aquecimento global. Os testemunhos funcionam como uma espécie de retrato histórico da atmosfera, permitindo que se descubra a composição do ar em determinado período.

– Com a precipitação, a neve varre da atmosfera elementos que estão suspensos no ar. Algumas moléculas reagem com água, outras são arrastadas e se depositam - explica o professor Heitor Evangelista, do Departamento de Biofísica e Biometria do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes, coordenador da equipe da Uerj na expedição.

No acampamento na Península Antártica, a cerca de dois mil metros de altitude, os pesquisadores enfrentaram temperatura média de 30 graus negativos e ventos de 100 km/h. De acordo com Evangelista, a escolha do local é fundamental para a pesquisa.

- Na Antártica, há lugares perdendo massa de gelo enquanto outros estão acumulando. A Península é onde há a maior perda de gelo. A região vem respondendo muito rapidamente ao aquecimento global, que é um fenômeno recente. O que nos interessa agora é entender o que aconteceu a partir da Revolução Industrial. O testemunho de gelo nos permitirá avaliar isso com alta resolução – completa.

Em análises anteriores, a equipe do Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais demonstrou que queimadas feitas no Brasil têm efeitos significativos na Antártica.

– Comprovamos isso ao medir, nas amostras de gelo, a quantidade de compostos químicos gerados durante a queima de florestas – explica Evangelista.

Esses indicadores são, basicamente, o black carbon, produzido na queima de petróleo ou em queimadas, e o levoglucosano, açúcar derivado da decomposição da celulose. Além disso, existe um sistema que rastreia por satélite as massas de ar.

– O impacto das queimadas não é apenas regional, tem implicação global. É possível verificar a influência da América do Sul e, ainda mais, do Brasil – diz.

Além de Evangelista, os pesquisadores Alexandre Alencar e Márcio Cataldo farão na Uerj análise microbiológica e datação com radioisótopos de parte do material trazido da Antártica. Outra parte do material será estudada por eles na Universidade do Maine e no Desert Research Institute, ambos nos Estados Unidos. Lá, por meio da identificação de isótopos estáveis e metais, os pesquisadores estudarão a temperatura no passado, além de inferir o processo de desertificação da América do Sul e seu impacto global.

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