A Turquia e a União Européia (UE) fecharam um acordo de última hora e iniciaram nesta terça-feira as negociações sobre a adesão turca, apesar do crescente ceticismo da opinião pública sobre a capacidade do bloco para absorver o populoso país muçulmano.
A cerimônia de inauguração foi retardada até depois da meia-noite de segunda-feira por causa de quase dois dias de intensas disputas a respeito das objeções da Turquia e da Áustria às condições de negociações impostas pela UE, diferenças que refletem a profunda desconfiança mútua.
- É uma situação de ganha-ganha, e o mundo também ganha - disse, exultante, o chanceler turco, Abdullah Gul, ecoando a tradicional posição turca de que a adesão reduziria as diferenças entre cristãos e muçulmanos e ajudaria a conter a ação de militantes islâmicos.
O secretário das Relações Exteriores britânico, Jack Straw, disse tratar-se de "um dia realmente histórico". Ele presidiu as negociações, que duraram até a hora-limite na segunda-feira, mas disse que a Turquia ainda tem muito a fazer sobre os direitos humanos e democracia.
Straw salientou que há um "longo caminho" nas negociações da adesão, e isso pareceu se confirmar durante a cerimônia, quando Gul foi direto para o seu lugar, evitando um aperto de mãos com os ministros da Áustria e de Chipre, cujo governo a Turquia não reconhece.
- Confio que a UE vai superar o ceticismo que agora existe dentro da União - disse Gul, prometendo falar grosso se for necessário.
- Esperamos que essas nossas preocupações sejam tratadas para nos trazer satisfação mútua.
Gul, cujo país espera há mais de 40 décadas por essas negociações, teve de passar o dia inteiro pendurado ao telefone em Ancara para tentar resolver as diferenças com outros países a tempo do prazo de 3 de outubro, marcado em dezembro para o início do processo.
Os Estados Unidos intervieram para apoiar o acordo, e a Áustria acabou aceitando que o objetivo da negociação será a adesão plena da Turquia à UE, não apenas uma "parceria privilegiada", como defendiam muitos conservadores e democratas cristãos na Europa Ocidental.
Em troca, a UE, hoje com 25 países, deixou claro que vai respeitar o seu ritmo ao receber esse país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que fica na fronteira entre Europa e Oriente Médio, e que outro fator importante serão os avanços de Ancara em cumprir os rígidos critérios relativos a direitos humanos e outras questões.
Se a negociação não começasse, as reformas políticas e os investimentos externos na Turquia sofreriam um duro golpe. Também haveria uma sensação de crise na Europa, já prenunciada pela derrota da Constituição européia em referendos na França e na Holanda e pelo impasse na definição do orçamento de longo prazo do bloco, em junho.
Gul acabou voando para Luxemburgo logo depois da meia-noite para receber abraços de funcionários da UE. Os britânicos, que ocupam a presidência rotativa do bloco, se gabaram de ter cumprido o prazo, uma vez que o desenlace se deu quando, pelo fuso horário britânico, ainda era segunda-feira - embora já fosse terça na maior parte do continente.
O chanceler português, Diogo Freitas do Amaral, disse que o acordo "provavelmente desagradará ao senhor (Osama) Bin Laden".
A Turquia, com 72 milhões de habitantes, agora enfrenta a enorme tarefa de adaptar seu sistema político, econômico e social e implementar 80 mil páginas de leis da UE. As negociações devem durar mais de uma década, e pelo menos dois países da UE, França e Áustria, prometem realizar referendos para que suas populações decidam sobre a adesão turca.
UE e Turquia fecham acordo sobre negociações de adesão
Terça, 04 de Outubro de 2005 às 08:15, por: CdB