As negociações sobre um acordo comercial entre a União Européia (UE) e o Mercosul, atualmente em fase final, receberão nesta semana respaldo político para a uma conclusão, mas o alcance final do pacto ainda pode deixar os dois lados insatisfeitos.
A UE e o bloco sul-americano do qual participam o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai tentam concluir em outubro um acordo para ampliar o comércio bilateral.
Mas, segundo analistas e negociadores, a recente oferta de concessões que a entidade européia fez para o Mercosul, e que será discutida nesta semana em Guadalajara (México), não permite prever um futuro crescimento das vendas para a UE de produtos agrícolas, que são os que mais interessam aos sul-americanos.
"A proposta da União Européia, mais do que uma oferta de liberação comercial, é um apelo para a boa vontade do Mercosul, uma forma de satisfação parcial que não me parece muito boa", disse André Nassar, diretor executivo do Instituto de Estudos de Comércio e Negociações Internacionais (Icone), do Brasil.
Em sua oferta, apresentada na semana passada, a UE propôs uma cota extra de 100 mil toneladas de carne bovina que o Mercosul envia dentro da chamada cota Hilton, de alta qualidade.
O bloco também ofereceu cotas de 75 mil toneladas para produtos avícolas e 11 mil toneladas para carne de porco, entre outras.
A oferta está muito distante das pretensões do setor privado do bloco sul-americano, grande produtor de bens agropecuários e que pediu cotas adicionais para as 315 mil toneladas que exporta de carne de vaca, 250 mil toneladas de carne de frango e 40 mil toneladas de carne de porco.
Um outro problema na oferta da UE, segundo Nassar, é que apenas metade das cotas oferecidas entrará em vigor de uma vez quando o pacto passar a valer.
Os 50 por cento restantes estarão atrelados a acordos a serem selados no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).
"Isso quer dizer que metade da cota extra não vai ser concedida ao Mercosul, mas sim a todos os países interessados. Então, temos de ver nas cotas oferecidas apenas metade do que está sendo anunciado. Essa é uma oferta pequena", acrescentou.
Por isso, segundo o especialista, o que está na mesa "é apenas o começo do final das negociações". "Cabe ao Mercosul insistir em melhorias e esperar de Guadalajara um respaldo político para o processo negociador."
De outro lado, a UE, que busca do Mercosul concessões nas áreas de serviços, licitações públicas e acesso aos mercados de bens industrializados, também não está satisfeita com a proposta dos sul-americanos.
Depois de receber a oferta do bloco europeu, um importante negociador sul-americano disse "ter ficado claro, desde o começo das discussões sobre a agricultura, que a oferta da Europa tem limites".
"Na minha opinião, não deveríamos ter criado falsas expectativas de ofertas ambiciosas nessa área", acrescentou.
O negociador, um diplomata experiente que não quis ter sua identidade revelada, disse que "em Guadalajara não haverá negociações, mas os ministros e comissários terão à disposição as ofertas e decidirão os próximos passos".
Em 2003, o Mercosul exportou para a UE o equivalente a 24,5 bilhões de dólares em mercadorias. Quase a metade dessas vendas correspondeu a produtos agrícolas.
As negociações técnicas entre os dois blocos terão um novo capítulo, depois da reunião no México, no dia 7 de junho, em Buenos Aires (capital argentina), quando se reúne a Comissão de Negociações Bilaterais.
As conversações entre a UE e o Mercosul, desde seu lançamento em 1995, avançaram em um ritmo semelhante àquele das negociações sobre a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), que pretende criar uma área de livre comércio abarcando o território que vai do Canadá à Argentina.
"Um sinal, mesmo que pequeno, de progresso nas negociações UE-Mercosul pode acabar sendo positivo para a Alca", afirmou Nassar.