Rio de Janeiro, 01 de Novembro de 2026

Twitter, Facebook e o povo na rua: a novidade é suficiente?

Terça, 13 de Setembro de 2011 às 09:56, por: CdB

Um novo fenômeno social está se consolidando emdiversas partes do mundo: a convocação de mobilizações e protestos sociais apartir do uso de redes sociais da internet. Em alguns países, essasmanifestações levaram a conseqüências políticas mais sérias, em outros não.Mas, ninguém pode negar que estamos presenciando um novo tipo de fenômenosocial.

No último dia 7 de setembro, por ex., os noticiáriosbrasileiros deram destaques a diversas manifestações contra a corrupção noBrasil. Sem entrar em discussão aqui sobre o problema da corrupção no Brasil–que não é só culpa ou responsabilidade dos políticos, pois há corruptores daárea privada– ou da democracia nos países árabes, eu quero focar a atençãosobre esta novidade de manifestações sociais mais ou menos espontâneas atravésdo uso de redes sociais.

Uma das características desses movimentos é que não háum líder carismático ou político visível, nem um partido ou um grupo político dirigindopor detrás dessas manifestações. As redes sociais, como facebook ou twitter,permitem que insatisfações sociais dispersas se articulem de uma forma mais oumenos "espontânea”, como um vírus que se espalha e se multiplica aproveitandodessa insatisfação.

Diante dessa realidade social nova, há muitos queproclamam que a era da política ou das articulações políticas já passou e quevivemos agora o tempo das mobilizações sociais que prescindiriam do campopolítico para gerar transformações sociais ou para criar uma sociedadealternativa. No fundo, a nova tecnologia possibilitaria o sonho antigo de umasociedade sem política, isto é uma sociedade sem Estado: uma sociedadeanarquista.

O interessante é que a ideologia ainda dominante nomundo, o neoliberalismo, é também uma proposta de uma sociedade sem Estado, oucom o mínimo de Estado necessário; utopia de uma sociedade baseada somente nasrelações de mercado. Parece que muitos procuram uma alternativa à globalizaçãoneoliberal sem romper com o mesmo princípio: o fim do Estado; e veem nessasmobilizações descentralizadas o caminho para nova sociedade.

O problema é que uma sociedade alternativa não pode serpensada como um movimento perpétuo, sem institucionalizações ou regras queestabeleçam uma "normalidade”. Penso aqui a normalidade no duplo sentido: a) nosentido de normal, isto é, de procedimentos e hábitos que realizamos sem terque pensar a cada momento; b) no de normas, de regras, que fazem todosaceitarem os mesmos limites dentro dos quais a liberdade é exercida na relaçãocotidiana com outras pessoas e com a sociedade.

É claro que essas mobilizações sociais contra acorrupção, que se tornou endêmica ao nosso sistema político, são importantes e constituemum bom sinal. Mas, não podemos esquecer que essas mobilizações precisamimpactar e influenciar o campo político, sem deixar de ser cooptado por este.Pois, sem novas regras e procedimentos políticos e novas leis, não é possívelrealizar mudanças estruturais na sociedade; muito menos criar um novo patamar,eticamente superior, de "normalidade” na vida pública.

Protestar e resistir são momentos importantes, mas nãosão suficientes. É preciso também pensar nos passos seguintes de ação políticae social visando criação de uma nova institucionalidade eticamente superior,socialmente mais justo e politicamente mais democrático.

[Autor de "Sujeitos e sociedades complexas”, Ed. Vozes.Twitter: @jungmosung].

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