Os juros no Brasil, pelas condições atuais, ainda têm espaço para novas reduções. Mas esse espaço começa a ficar mais estreito por uma série de fatores, inclusive as turbulências externas.
Já havia dúvidas em relação ao ritmo de corte a ser implementado nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom). A inflação, embora com boa folga em relação à meta de 4,5%, continua registrando preços fortes de alimentos, no atacado e no varejo, que devem colocar os diversos índices, inclusive o IPCA, em patamar mais alto do que era esperado pra este ano.
Vale lembrar que, no começo de 2007, se falava inclusive na possibilidade de o índice oficial ficar abaixo do limite inferior da meta, dado o bom comportamento dos preços. E, na definição da meta de inflação para 2009, que o governo preferiu manter em 4,5%, se argumentava muito a facilidade com que a inflação ficaria contínua em nível mais baixo, de 4%. Pois bem, os preços dos alimentos estão limitando essa queda. E, para o ano que vem, também por outros fatores, como a projeção de reajustes maiores para os preços administrados, a inflação deve corre muito encostada à meta.
Tem mais: os juros no Brasil podem estar chegando ao chamado ponto de equilíbrio, nível até onde podem cair sem estimular demais a atividade e o consumo, a ponto de provocar desequilíbrios em relação à oferta. Não só a oferta geral na economia mas também de serviços estruturais. O Brasil é carente de investimentos e estrutura em área prioritárias, como transportes e energia, que podem não atender ao ritmo de demanda de uma economia mais acelerada, por período mais longo.
Tudo isso se refere, basicamente, às questões domésticas se o Brasil não tivesse de olhar muito para o cenário externo. Mas tem. E a maré favorável da economia internacional que tem ajudado a economia brasileira a navegar em águas calmas mudou e pode mudar mais. A crise decorrente do setor imobiliário americano ainda ameaça se alastrar mais pelo sistema financeiro, atingindo a economia real. O Brasil pode enfrentar um ambiente de menor liquidez, redução do fluxo de investimentos e menor atividade econõmica, com possíveis reflexos até no comércio internacional. E agora esse deverá ser um fator decisivo nos passos da política monetária.
Manter ou não os juros internos em queda vai depender muito do cenário internacional. Enquanto se cogita a possibilidade de os bancos internacionais, como da Europa e dos Estados Unidos, terem de reduzir os juros, para diminuir os reflexos negativos da crise imobiliária americana, o Brasil teria de traçar caminho inverso, para segurar o ritmo de atividade, pressões inflacionárias e manter uma atratividade adicional para os investidores, visando inclusive possíveis impactos no câmbio. O dólar só rompeu, para cima, a barreira de R$ 1,90 e até de R$ 1,95 pela crise internacional. Pelo ambiente interno a cotação deveria estar muito inferior a este patamar.
Portanto, é muito difícil prever qual será o movimento do Copom nas próximas reuniões. Se a crise externa ceder e houver acomodação dos mercados, tudo prossegue como previsto. Mas diante das incertezas internacionais, a "parcimônia" com que o Banco Central trata essa questão só tende a aumentar.