Tropas do contingente pacificador da Comunidade Econômica dos Estados de África Ocidental (Cedeao) assumiram oficialmente nesta quinta-feira as instalações portuárias de Freeport, em poder dos rebeldes desde o início da ofensiva contra a Monróvia, capital da Libéria, em 19 de julho.
A cerimônia de posse, que coincidiu com a retirada das milícias do grupo rebelde Liberianos Unidos para a Reconciliação e a Democracia (Lurd), aconteceu as 11h30 GMT (8h30 de Brasília) e foi presidida pelo chefe das forças da Cedeao, o general nigeriano Festus Okonkwo.
Estiveram também presentes o embaixador dos Estados Unidos na Libéria, John Blaney, e o vice-secretário geral do Lurd, Sekou Fofana.
— Não temos razão para duvidar da credibilidade das tropas pacificadoras (da Cedeao). Cumprimos com nossa promessa e nos retiramos disse Fofana no ato de transferência.
A saída dos milicianos rebeldes foi feita em ordem, embora muitos deles tenham feito disparos para o ar enquanto marchavam para a saída das instalações. Espera-se que esta tarde unidades de marines americanos, que chegaram nesta quinta à Monróvia, ocupem as instalações com a missão de controlar a área e permitir assim o início de provisão humanitária à cidade, onde mais de 450.000 pessoas deslocadas pela guerra passam fome.
Os militares dos Estados Unidos, transportados a base aérea de Robertsfield, nos arredores de Monróvia, compõem 150 forças especiais de reação. A retirada em ordem de tropas dos efetivos do Lurd a Tubmanburg, 60 quilômetros ao norte da Monróvia, ocorre após vários dias de intensas negociações.
O pacto foi assinado na terça-feira entre comandantes rebeldes e Okonkwo e referendado por Blanet, que estava acompanhado do general de divisão de seu país Thomas Turner.
A retirada das milícias do Lurd permitirá não só criar uma faixa neutra entre as linhas rebeldes e as governamentais pelos efetivos da Cedeao, mas, e principalmente, iniciar o fornecimento em grande escala de alimentos, medicamentos e móveis e utensílios, em Monróvia e paulatinamente no resto do país.
Enquanto isso, o presidente liberiano, Moses Blah, investido na segunda-feira passada depois da renúncia e partida para o exílio na Nigéria de seu antecessor, Charles Taylor, chegou esta tarde a Acra, capital de Gana, onde acontecem negociações entre representantes da rebelião e do Governo liberiano.
A visita de Blah à capital ganesa é vista de forma muito positiva pelos observadores, que dizem que "dinamizará" as discussões, nas quais estão também presentes representantes da ONU e diplomatas ocidentais.
Os contatos entre o Governo liberiano e a rebelião estão encaminhados a alcançar um acordo de paz definitivo para a Libéria e decidir as mudanças constitucionais necessárias. Blah se manterá na chefatura do Estado até outubro próximo, quando deverá passar o poder a um Governo de transição que será decidido em Acra e que deverá convocar eleições gerais em dois anos.
A Libéria, de 3,3 milhões de habitantes, se viu imersa em guerras civis continuadas nos últimos 14 anos, que, além de levar o país à ruína, ocasionaram a morte de centenas de milhares de pessoas e obrigaram muitas mais a buscar refúgio nos países vizinhos.