O Inquérito Policial Militar (IPM) que apura a colaboração de oficiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) no filme Tropa de Elite abriu uma crise na cúpula de segurança pública. Por determinação do governador Sérgio Cabral, o corregedor-geral da PM do Rio, coronel Paulo Ricardo Paúl, foi colocado na berlinda. Ficou nas mãos do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, a decisão de exonerá-lo do cargo - o que deve acontecer até o fim da semana.
O estopim da crise foi a convocação do diretor de Tropa de Elite, José Padilha, para prestar depoimento sobre como os oficiais ajudaram o longa. Padilha chegou a ser orientado pelo governador a não comparecer, porém recuou. O cineasta deu depoimento na segunda-feira à tenente-coronel Ana Cláudia Siciliano.
Outro que voltou atrás foi o ex-capitão Rodrigo Pimentel, um dos roteiristas do filme. Ele disse ona terça-feira que vai depor nesta quarta à tarde, mas que levará folhas impressas com texto do blog pessoal do coronel Paúl em que ele afirmava que se juntaria a outros oficiais da PM - inclusive do Bope - em ação judicial pedindo que o filme deixasse de ser exibido.
Reuniões com coronéis
— Os posts em que o coronel dizia isso saíram do ar, mas tenho a versão impressa — contou Pimentel. Tanto ele como Padilha disseram que resolveram depor "em consideração ao governador".
Segundo um oficial ligado a Pimentel, os coronéis Hudson de Aguiar, então comandante-geral, e Wilton Ribeiro, subsecretário operacional, tinham ciência das filmagens de Tropa de Elite no ano passado. A informação é de que José Padilha participou de reuniões com os oficiais. Em um dos encontros, Wilton até teria elogiado os policiais escolhidos por Padilha para orientar os atores, os capitães Storani, Laet e Ademar.
A informação é confirmada por um dos autores do livro Elite da Tropa, que inspirou o filme. O major André Batista afirmou nesta terça que o diretor, ao convidá-lo para ajudar no filme, deixou tudo bem claro. — Participei muito pouco da orientação aos atores do filme, mas o Zé Padilha ressaltou na época que o comandante Hudson sabia de tudo — relatou.
Ex-comandante "não se lembra"
Ex-comandante da PM, o coronel Hudson de Aguiar afirmou que não se recorda de ter sido um dos responsáveis pela autorização que permitiu que integrantes da produção do Tropa de Elite acompanhassem o treinamento de policiais do Bope. — Não me lembro. Acho que não passou. Será que isso é verdade? — indagou. Hudson foi o comandante da PM entre julho de 2004 e janeiro deste ano.
Outro que disse não se lembrar do episódio foi o também ex-comandante da PM, coronel Wilton Soares Ribeiro, que à época das filmagens era o subsecretário operacional da Secretaria de Segurança. — Não me lembro disso. Do passado a gente nem lembra mais — justificou.
Procurado, o corregedor da PM, coronel Paulo Ricardo Paúl, disse que não se pronunciaria sobre o assunto.