A tropa de choque da Bolívia protegia o Congresso armada de bombas de gás lacrimogêneo na terça-feira, quando milhares de manifestantes indígenas que exigem a nacionalização do setor de energia preparavam grandes passeatas na capital. Grupos radicais ameaçavam fechar o Parlamento.
O presidente Carlos Mesa garantiu aos parlamentares que a polícia protegeria a sessão de terça-feira dos manifestantes, que devem invadir as estreitas ruas coloniais de La Paz no que pode ser o maior dia de protestos das últimas duas semanas de turbulência social.
- Acreditamos que grupos isolados vão tentar impedir que a sessão ocorra - disse o ministro das Relações Exteriores, Juan Ignacio Siles, a jornalistas estrangeiros na noite de segunda-feira.
O principal partido de oposição, o Movimento para o Socialismo, liderado pelo cocaleiro Evo Morales, pediu a seus seguidores que respeitem a sessão do Congresso marcado para a tarde de terça.
A polícia armou barricadas nos arredores da praça Murillo, que abriga o Congresso e o palácio presidencial. Lojas do centro da cidade fecharam as portas para evitar o vandalismo dos manifestantes, que carregam chicotes e cargas de dinamite.
Mesa subiu ao poder em 2003, depois de protestos indígenas terem derrubado seu antecessor pró-Estados Unidos. Mas, embora tenha prometido curar as feridas sociais do país mais pobre da América do Sul, está com dificuldades em se manter no cargo, por causa da crescente militância política indígena.
O clima de instabilidade gerou preocupação em países como Brasil e Argentina, e o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, fez um apelo aos bolivianos para que solucionem suas divergências de forma democrática.
O ponto principal dos protestos é a exploração das vastas reservas de gás natural da Bolívia, que representam a segunda maior reserva da América Latina.
Boa parte da maioria indígena acha que a lei de energia aprovada pelo Congresso há duas semanas não dá controle suficiente ao Estado, e muitos querem a nacionalização total do setor, dominado por empresas estrangeiras como a Petrobras.
Mas a lei de energia não está na agenda do Congresso para terça-feira. Os parlamentares pretendem avançar respondendo à reivindicação de outro setor poderoso: as províncias ricas do leste, que abrigam as reservas de gás natural e de petróleo do país, que querem mais autonomia.
O Congresso vai tentar marcar a data de um plebiscito sobre a autonomia, cumprindo a promessa feita pelo governo em janeiro para esvaziar um movimento pró-independência em Santa Cruz, liderado pela elite formada por descendentes de europeus, preocupada com a crescente influência dos índios no oeste do país e na capital.
Os líderes de Santa Cruz tinham convocado unilateralmente um plebiscito sobre a autonomia para agosto.
Numa manobra delicada para equilibrar a situação, o governo quer que o Congresso comece a trabalhar em cima de uma exigência dos grupos indígenas: a convocação de uma assembléia para rescrever a Constituição e redistribuir o poder de modo a refletir a maioria indígena.
Para analistas, a assembléia devia ser formada antes do plebiscito sobre a autonomia.
- Estamos num impasse - disse o analista político Jorge Lazarte.
- Se houver uma solução, ela pode vir de Santa Cruz, dizendo que vai discutir a data em vez de impô-la.
Mesa não é filiado a nenhum partido político e tem poucos aliados no Congresso. Mas, quando tentou renunciar em março, alegando que estava de mãos atadas, o Congresso rejeitou a renúncia.
O presidente já disse várias vezes que vai evitar a repetição da repressão violenta de outubro de 2003, que culminou com a queda de Gonzalo Sanchez de Lozada, derrubado pela revolta da população contra seus planos de exportar gás através do Chile, tradicional rival da Bolívia.
- A solução é que todos os partidos sentem-se à mesa e cedam em alguns pontos em
Tropa de choque protege sessão do Congresso boliviano
Terça, 31 de Maio de 2005 às 12:56, por: CdB