Alguns prevêem que esse poderá ser o "julgamento do século", mas levar o ex-ditador iraquiano à Justiça não tem sido um processo tranquilo e pode revelar-se ainda mais conturbado.
Em pouco mais de um mês, o ex-dirigente deve começar a ser julgado por crimes contra a humanidade devido à morte de 150 homens xiitas no vilarejo de Dujail (norte de Bagdá), depois de uma tentativa fracassada de assassinato, em 1982.
O caso está nas mãos do Tribunal Especial do Iraque, um órgão criado com a ajuda dos EUA em 2003 para julgar os membros do antigo governo iraquiano por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio.
Está previsto que Saddam e outros sete acusados comecem a ser julgados no dia 19 de outubro, em uma sala especialmente construída dentro da Zona Verde - uma área de segurança máxima localizada em Bagdá.
A maior parte dos iraquianos diz estar ansiosa para ver o ex-presidente sentado no banco dos réus, quase dois anos depois de ele ter sido capturado, e muitos esperam que ele acabe sendo condenado à morte. Se for considerado culpado, Saddam pode ser enforcado.
Mas outros questionam a legitimidade do tribunal e perguntam-se se o ex-ditador poderá ser julgado de forma justa dentro de seu próprio país. Essas pessoas argumentam que um tribunal internacional, como o encarregado de julgar o ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, poderia ser mais justo.
Estrangeiros encarregados de auxiliar a corte iraquiana reconhecem haver alguns problemas.
- Há sinais de ingerência do governo sobre a corte...há desafios - disse uma pessoa familiarizada com o tribunal e que não quis ter sua identidade revelada.
O primeiro presidente do tribunal, Salem Chalabi, sobrinho do vice-primeiro-ministro Ahmad Chalabi, foi sacado do cargo pelo antigo governo no ano passado após ter sido acusado de envolvimento na morte de uma autoridade do setor de finanças do Iraque. Posteriormente, ele foi inocentado da alegação.
Salem Chalabi, de 42anos, nomeado pelos EUA, foi o responsável pela escolha dos juízes e dos promotores do tribunal. O julgamento de Saddam, segundo promessas feitas então, começaria no final de 2004.
Isso não aconteceu porque os investigadores encontraram dificuldades na coleta de provas.
Ao final, a acusação resolveu concentrar-se no caso de Dujail porque, segundo membros do tribunal, ele era claro e as provas existentes aumentavam as chances de condenação.
Os piores crimes de que Saddam é acusado, tais como ordenar o uso de armas químicas que mataram milhares de curdos nos anos 1980 e sufocar de forma violenta um levante xiita em 1991, dependiam da descoberta de mais provas antes de serem levados à Justiça.
E, apesar de a data do julgamento já ter sido marcada, as leis que regerão o procedimento ainda precisam ser oficializadas. A publicação dessas leis deve acontecer em breve.
Mesmo que o julgamento de Saddam prossiga e o ex-ditador seja condenado, há um outro obstáculo à frente. O presidente iraquiano, Jalal Talabani, um curdo contrário à pena capital, precisa assinar uma eventual condenação à morte do ex-ditador.