Um fato raro mostra que a produção documental brasileira está em plena vitalidade. Três documentários brasileiros chegaram, nesta sexta-feira, às salas de cinema do Brasil, apesar dos problemas crônicos de distribuição e exibição de filmes no País.
As produções são: Intervalo Clandestino, O Sol, Caminhando contra o Vento e Um Craque Chamado Divino. Além deles, estreiou uma co-produção EUA/Brasi Favela Risin.
A estréia simultânea pode prejudicar a carreira comercial dos filmes, já que eles disputam o mesmo circuito e o mesmo público. Da forma como são lançados, eles entram em cartaz em poucas salas e, na maioria das vezes, fazem públicos ínfimos.
Das quatro estréias, a mais ousada é Intervalo Clandestino, de Eryk Rocha (Rocha que Voa). O filme, rodado no Rio de Janeiro antes, durante e depois das eleições de 2002, tenta captar o estado de espírito do povo diante da realidade política do país. Na tela, alternam-se entrevistas com pedestres, imagens de arquivo de políticos e vinhetas que beiram a abstração. Embora a tentativa de quebrar a monotonia visual dos documentários seja louvável, ela não consegue esconder o caráter genérico e dispersivo dos depoimentos.
O Sol, Caminhando contra o Vento apresenta uma proposta mais modesta: afirmar a importância do jornal-escola carioca O Sol, que, em poucos meses de existência, em 1967, teve um papel de destaque na criação de uma imprensa alternativa de resistência ao regime militar. A publicação teria inspirado a música Alegria, Alegria, de Caetano Veloso (... o Sol nas bancas de revista...").
Para contar a história de O Sol, a diretora Tetê Moraes produz e registra uma festa com pessoas ligadas ao jornal (Gilberto Fil, Fernando Gabeira, Zuenir Ventura etc.). O documentário passa a impressão de que os entrevistados estão se divertindo. O mesmo não poderá ser dito sobre os espectadores.
Um Craque Chamado Divino é outra tentativa de resgate histórico, mas em um campo diferente, o do futebol. No longa de Penna Filho, a trajetória do jogador Ademir da Guia - que marcou época no Palmeiras das décadas de 60 e 70 - é relembrada por jornalistas, como Juca Kfouri e Alberto Helena Junior, e jogadores, como Leivinha e Sócrates.
Fosse atleta nos dias de hoje, o estilo cadenciado de Ademir, o Divino (apelido herdado do pai, Domingos da Guia), poderia ser comparado ao de Zidane, considerado o principal jogador da última Copa do Mundo. Com um tom reverenciador, o longa é sobretudo para fãs do esporte.
Favela Rising, dirigido pelos norte-americanos Matt Mochary e Jeff Zimbalist, também aposta no documentário biográfico ao contar a história do carioca Anderson Sá - que conseguiu escapar do crime ao se tornar vocalista da banda AfroReggae, da favela de Vigário Geral (Rio de Janeiro). Esse olhar estrangeiro sobre a realidade brasileira ganhou o prêmio de melhor documentário de 2005 da International Documentary Association.