Rio de Janeiro, 05 de Maio de 2026

Transposição: deflagrada a espoleta do desmantelo

Por João Suassuna - A possibilidade de faltar energia no Nordeste em três anos, apontada pelo ONS, bem traduz o que estamos denunciando há cerca de uma década, ao analisarmos os usos múltiplos das águas do rio São Francisco e o seu projeto de transposição. (Leia Mais)

Quinta, 06 de Outubro de 2005 às 09:34, por: CdB

O Nordeste brasileiro começará a enfrentar o risco da falta de energia elétrica já a partir de 2009. Essa assertiva foi prognosticada pela Operadora Nacional do Sistema Elétrico - ONS, em matéria publicada no Diário de Pernambuco, na edição do dia 3 de setembro, na qual se afirmava que 9% dos dois mil cenários utilizados nas simulações feitas por aquela operadora apontam para um déficit de 1% da carga local, o que significa dizer que, naquele ano, a demanda de energia elétrica estará 87 MW médios acima da oferta da região. A matéria esclarece ainda que o nível considerado seguro pelo ONS é o de um percentual abaixo de 5% nas simulações realizadas.

Essa possibilidade de faltar energia no Nordeste daqui a pouco mais de três anos, apontada pelo ONS, bem traduz o que estamos denunciando há cerca de uma década, ao analisarmos os usos múltiplos das águas do rio São Francisco e o seu projeto de transposição. No nosso trabalho, estamos insistentemente alertando as autoridades brasileiras para as limitações e os riscos existentes no rio, principalmente aqueles com implicações diretas na geração de energia, preocupações estas que acabaram por vir à tona, desta feita através de um dos órgãos oficiais responsáveis pelo setor.

Além do mais, esse quadro preocupante da hidrologia do rio, que culminou, inclusive, com a necessidade de se racionar energia no ano de 2001, será agravado pelo recente pacto de sustentabilidade firmado entre o governo federal e os governadores dos Estados que irão receber as águas da transposição (PE, PB, RN e CE), tendo Pernambuco - Estado em situação diferenciada dos demais por ser, ao mesmo tempo, exportador e receptor das águas do São Francisco - reivindicado um maior quinhão, por entender que não deveria exercer apenas a função de aqueduto ou de "passagem" das águas do São Francisco em seu território para o abastecimento dos Estados receptores. Apesar de sempre ter-se mostrado avesso às discussões necessárias a um projeto dessa magnitude, o Estado de Pernambuco, encaminhou no mês de maio passado, após a oficialização do projeto pelo governo federal, uma proposta ao Ministério da Integração, reivindicando volumes para o abastecimento de sua população, bem como para o desenvolvimento do agro-negócio, proposta esta que irá resultar no comprometimento de mais 19 m³/s do rio, volume que deverá ser somado àquele de 26 m³/s anteriormente estabelecido no projeto. Portanto, as outorgas já estabelecidas serão insuficientes para satisfazer as novas necessidades do projeto, situação essa que irá obrigar os dirigentes a novas rodadas de negociações, para a determinação das outorgas definitivas. Acerca dessas questões, escrevemos um artigo em abril de 2000 intitulado "A gerência da torneira", no qual denunciávamos os riscos da exploração descontrolada das águas do rio São Francisco, por motivo de ingerências políticas. Infelizmente, essas previsões estão-se tornando realidade no nosso Estado natal.

A proposta pernambucana fundamentou-se na substituição do Eixo Norte pelo Canal do Sertão, o qual irá demandar do rio São Francisco um volume de cerca de 13 m³/s, prevendo-se, para tanto, a adução das águas na altura da represa de Sobradinho para o benefício de todo o extremo-oeste pernambucano, onde estão localizados os melhores solos do Estado. Nessa negociação estão previstas retiradas volumétricas suficientes para a irrigação de uma área de cerca de 150 mil ha de solos férteis. O governo está propondo também a adução extra de 5 m³/s para o abastecimento do açude de Entremontes, localizado no alto sertão do Estado, para o qual, na proposta original do projeto, estava prevista uma adução da ordem de 10 m³/s. No Eixo Leste, o governo propôs a criação do Ramal do Agreste com uma vazão de 1 m³/s, para o abastecimento dos municípios que fazem parte da bacia do rio Ipojuca, com origem no município de Arcoverde e destino final no município de Gravatá, portanto fora dos limites da bacia hidrográfica do Velho Chi

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