Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Traição e delação enquanto ética

Por Alípio Freire - Além de provas documentais das acusações, certamente a senadora apenas deixou vir à tona em sua fala a ponta de um iceberg, que deve se consolidar em algum “dossiê” capaz de maiores estragos. O que era óbvio, tornou-se testemunhal: a senadora Marta Suplicy (PT-SP), em sua entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” (edição de 10/01/2015), traindo e delatando publicamente seus companheiros de conspiração da véspera, revelou que (como vimos alertando em nossa coluna e em outros artigos), desde meados de 2013, uma articulação – da qual participou ativamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – tentou inicialmente inviabilizar a candidatura e, em seguida, a reeleição da presidenta Dilma Rousseff.

Sábado, 24 de Janeiro de 2015 às 13:00, por: CdB
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Colunista Alípio Freire comenta o episódio das revelações da senadora Martha Suplicy sobre a candidatura de Dilma Rousseff à reeleição
Além de provas documentais das acusações, certamente a senadora apenas deixou vir à tona em sua fala a ponta de um iceberg, que deve se consolidar em algum “dossiê” capaz de maiores estragos O que era óbvio, tornou-se testemunhal: a senadora Marta Suplicy (PT-SP), em sua entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” (edição de 10/01/2015), traindo e delatando publicamente seus companheiros de conspiração da véspera, revelou que (como vimos alertando em nossa coluna e em outros artigos), desde meados de 2013, uma articulação – da qual participou ativamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – tentou inicialmente inviabilizar a candidatura e, em seguida, a reeleição da presidenta Dilma Rousseff. Além de provas documentais das acusações, certamente a senadora apenas deixou vir à tona em sua fala a ponta de um iceberg, que deve se consolidar em algum “dossiê” capaz de maiores estragos. Pelo menos, é o que ordenam os “Manuais do Bom Chantagista” – todos eles de tradição oral. Isto, que foi nossa hipótese levantada logo após a publicação da entrevista, se confirma com o silêncio eloqüente das altas esferas do PT, do Instituto Lula, e do próprio ex-presidente Luiz Inácio – posto a nu pela “loira de olhos azuis”, conforme se autorrefere a própria senadora na sua fala ao “Estadão”. O mais grave é a naturalização da traição e da delação, que acabam se erigindo em métodos adequados e ética louvável: “O importante é se dar bem” (lei de Gerson).Ao conspirar contra a candidatura da presidenta – a senadora, o ex-presidente Luiz Inácio e seus parceiros e “cumpadres”, buscaram um expediente que garantisse a candidatura do segundo, mas que inviabilizasse qualquer discussão e decisão das instâncias do PT sobre o assunto. Assim, traíram as normas do partido e, portanto, os seus filiados. Nada mais normal que um grupo de petistas (não importa por qual razão política) preferisse outra candidatura que não a da presidenta Dilma Rousseff, e lançasse outro nome, submetendo-o ao debate. Acontece que o ex-presidente Luiz Inácio e sua corte não se submetem a nada, a nenhuma instância, não discutem nada. O chefe do grupo omite-se em todas as crises, age nas caladas, e pretende sempre aparecer como um consenso no interior do partido – consenso que nunca foi e que tende a se tornar cada vez mais insustentável. Passo seguinte, anunciada oficialmente pelo PT a candidatura da presidenta Dilma, a conspiração prosseguiu, colocando em risco a própria continuidade do PT no governo. Até hoje não sabemos quais possam ser as divergências no plano da política, embora no que diz respeito à ética e aos métodos, as divergências estejam mais que claras. O que não se pode esquecer em qualquer hipótese é que, com esses métodos e ética (próprios dos nossos inimigos de classe e daqueles que se submetem aos seus valores), só seremos capazes de construir uma sociedade que seja um arremedo caricato da que dizemos combater. (Publicado originalmente no jornal Brasil de Fato) Alípio Freire, jornalista, poeta, escritor, artista plástico, roteirista e cineasta. Membro do Conselho Editorial do Brasil de Fato. Militou na Ala Vermelha (1967-1983), foi torturado e preso cinco anos por resistir à ditadura militar. Colabora com a imprensa popular, sindical e de esquerda, por suas iniciativas mantém viva a memória dos anos de chumbo, dirigiu e editou diversas publicações. Autor de livros, entre eles os de poesia “Estação Paraíso” e “Rapsódia de Ordem Política e Social”. Dirigiu o documentario “1964 um Golpe Contra o Brasil”. Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins
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