Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Tragédia latinoamericana completou 41 anos

Por Mário Augusto Jakobskind - Já que de um modo geral os meios de comunicação hegemônicos, conservadores, praticamente silenciaram em relação ao 11 de setembro latinoamericano, lembrando-se apenas do ato terrorista em Nova York na mesma data, só que 28 anos depois, vale recordar fatos relacionados com os acontecimentos que resultaram no golpe militar que derrubou o Presidente Salvador Allende, que na última quinta-feira (11) completou 41 anos. Trata-se de uma data trágica, não resta dúvida.

Sábado, 13 de Setembro de 2014 às 14:35, por: CdB
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Pouco se falou na mídia sobre o golpe do 11 de setembro contra Salvador Allende, no Chile, em 1973
 Já que de um modo geral os meios de comunicação hegemônicos, conservadores, praticamente silenciaram em relação ao 11 de setembro latinoamericano, lembrando-se apenas do ato terrorista em Nova York na mesma data, só que 28 anos depois, vale recordar fatos relacionados com os acontecimentos que resultaram no golpe militar que derrubou o Presidente Salvador Allende, que na última quinta-feira (11) completou 41 anos. Trata-se de uma data trágica, não resta dúvida.  Muito se denunciou sobre a participação dos Estados Unidos no golpe liderado pelo famigerado general Augusto Pinochet, por sinal participação  comprovada por inúmeros documentos oficiais demonstrando a culpa no cartório do então Secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger. Documentos da chancelaria do Chile tornados públicos confirmam a participação também do Governo brasileiro, do então ditador de plantão Garrastazu Médici no golpe sangrento. A embaixada brasileira tornou-se inclusive num espaço de apoio aos golpistas. O chefe da representação diplomática, embaixador Câmara Canto, esteve de braços dados com militares que transformaram o Chile numa espécie de sucursal do inferno. Tanto assim que quando se confirmou a vitória dos golpistas, Câmara Canto comemorou com seus asseclas abrindo champagne.   Logo após o golpe, o Governo brasileiro colaborou financeiramente com a ditadura e assim sucessivamente. Mesmo antes do golpe, a ditadura civil militar vigente no Brasil respaldava os chilenos de extrema direita. Documentos tornados públicos no Chile comprovam a participação de brasileiros em apoio a grupos extremistas de  direita como o Patria y Libertad. Matéria do jornal O Estado de S. Paulo, do ano passado,  informa que, em julho de 1973, o Brasil concedeu asilo político a Eduardo Roberto Keymer Aguirre, identificado como integrante do Patria y Libertad. A concessão ocorreu quatro dias depois que os extremistas assassinaram um ajudante de ordens de Allende, o capitão Arturo Araya Peeters. Os vínculos da extrema direita chilena com extremistas brasileiros não se resumiram a este fato. Anos atrás, o cientista político René Dreifuss em seu livro “A Internacional capitalista” revelou que o jornalista Aristóteles Drummond, uma figura nefasta vinculada até hoje a antigos golpistas da pior espécie, fornecia armas para os extremistas do Patria y Libertad. Há tempos este espaço democrático divulgou a informação veiculada no importante trabalho de pesquisa de René Dreifuss sobre o extremista brasileiro acusado inclusive de responsável pela explosão de uma bomba numa exposição soviética no Rio de Janeiro. Pois bem, na reportagem do Estadão sobre os documentos divulgados no Chile, aparece novamente o nome de Aristóteles Drumond como um dos brasileiros que teria transportado recursos para os chilenos que preparavam o golpe contra Salvador Allende. Questionado pelo jornal paulista, Aristóteles Drummond preferiu não assumir diretamente a ajuda fornecida, mas a sua resposta é praticante um reconhecimento da ajuda. Analisem bem o que disse este senhor que todo ano aparece no Clube Militar- este ano na Barra da Tijuca - para comemorar o golpe que levou o Brasil a ingressar numa noite escura de 21 anos.  "Eu não levei, mas teria levado. Tenho o sentimento de que os brasileiros amigos do Chile tenham (enviado dinheiro). Sou de classe média, mas, se corresse uma lista aqui para dar US$ 500 (a grupos anti-Allende), eu daria do meu bolso. Acho que o general Pinochet foi decisivo para evitar a criação de uma sucursal de Cuba no Pacífico. Pinochet salvou o Chile, assim como os militares salvaram o Brasil." Aristóteles Drumnond, que chegou a ocupar um cargo de confiança no governo Negrão de Lima na área de habitação, não foi perguntado pelo Estadão sobre a denúncia de René Dreifuss sobre o fornecimento de armas ao gupo Patria y Libertad, Mas se em algum momento for perguntado sobre o tema, provavelmente não confirmará integralmente a ação, mas o teor da reposta será nos moldes da que deu ao Estadão. Tais fatos são importantes de serem conhecidos pela opinião pública e ajudarão também à Comissão da Verdade a concluir seu relatório sobre os trágicos acontecimentos ocorridos no Brasil depois do golpe de estado que derrubou o Presidente constitucional João Goulart. O caso de Aristóteles Drummond é bastante emblemático e não será nenhuma surpresa se outros documentos a serem tornados públicos apontem a participação de outros brasileiros que seguiram impunes ao longo do tempo. É também uma demonstração concreta segundo a qual o golpe no Brasil não foi apenas de conotação militar, mas civil também. Por estas e muitas outras não bastam apenas autocríticas de estilo marqueteiro, como fez O Globo, sobre o golpe de 64. No caso das Organizações Globo, que ao longo dos anos se transformaram numa espécie de diário oficial dos detentores de fato do poder, teria que acontecer um reconhecimento que além do “erro editorial” do apoio ao golpe, o grupo midiático então comandado por Robert0 Marinho, como diria Leonel Brizola, engordou na estufa da ditadura. Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil); preside a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI – seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla (no prelo). Direto da Redação é um fórum de debates, do qual participam jornalistas colunistas de opiniões diferentes, dentro do espírito de democracia plural, editado, sem censura, pelo jornalista Rui Martins.  
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