A ação policial contra os traficantes que disputam o controle da favela da Rocinha não vai livrar a área de quadrilhas, drogas ou futuros conflitos, disseram especialistas em criminalidade, que propuseram programas sociais de longo prazo como solução para a violência.
A hierarquia do narcotráfico no Rio - importante ponto de passagem para a cocaína de Colômbia, Peru e Bolívia em direção à Europa, além de ser um importante mercado em si mesmo - vai além dos traficantes estabelecidos nas favelas, que são facilmente substituíveis. De acordo com especialistas, a ausência de instituições públicas e da lei nas mais de 600 favelas cariocas não pode ser resolvida em operações policiais de cunho militar.
Luciano Barbosa da Silva, o Lulu, chefe do tráfico na Rocinha, foi morto em tiroteio com a polícia na quarta-feira. As autoridades estão vasculhando outras favelas em busca de Eduíno Eustáquio de Araújo, o Dudu, que na semana passada tentou invadir a Rocinha para roubar o ponto de Lulu, desencadeando uma guerra de quadrilhas que matou 12 pessoas. A polícia disse na sexta-feira que outro bandido, conhecido como Zarur, já teria assumido o comando do tráfico na Rocinha em substituição a Lulu e que seu grupo ainda conta com cerca de cem homens armados.
``Eles têm uma dúzia de líderes em potencial preparados'', disse Julita Lemgruber, diretora do Centro de Estudos da Segurança do Rio. ``Você só pode vencer usando inteligência e um trabalho cotidiano, com ação preventiva, e não reativa.''
Além de distribuírem drogas, os chefes do tráfico fornecem ajuda econômica à comunidade e, à sua maneira, um tipo de ordem social. Contra isso, de acordo com Lemgruber, o governo precisa dar empregos e programas sociais nas favelas. ``Programas sociais ajudam, sim, mesmo em curto prazo.
O Estado tem de estar presente ali, tem de atrair as crianças para projetos de aprendizado, dar algum sentido a suas vidas.'' Mais de 20 por cento da cocaína e a maior parte da maconha que chega ao Rio é vendida na própria cidade. Em seu livro ''Crianças do Narcotráfico'', de 2003, o pesquisador Luke Dowdney disse que, enquanto os traficantes das favelas, que gerenciam o ''varejo'' das drogas, são perseguidos pela polícia e atraem a atenção da imprensa, os ``atacadistas'' acima deles quase nunca são apanhados e passam praticamente incógnitos.
Agindo de forma independente das quadrilhas, esses fornecedores têm amplos contatos internacionais e acesso a esquemas de lavagem de dinheiro e a autoridades de primeiro escalão. O mais famoso criminoso brasileiro vivo, Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, é um dos raros traficantes de favela que conseguiu chegar a ``atacadista'' das drogas. Embora ele esteja preso desde 2001, quando foi capturado na Colômbia, acredita-se que ele estaria por trás da tentativa de derrubar Lulu.
Fontes do governo admitem que, sem a destruição dos esquemas de importação e de lavagem de dinheiro, a criminalidade não vai diminuir. Mas há pouca coordenação para esse fim em nível nacional, segundo Lemgruber. Nas favelas cariocas, grupos bem organizados, normalmente ligados a três facções -- Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigos dos Amigos -- são comandados pelos ``donos'' dos morros, que chegam a ter várias favelas sob seu comando.
Os chefes do tráfico, que podem mesmo viver fora das favelas, geralmente têm um ``gerente geral'' em cada morro controlado. Estes por sua vez têm subgerentes para as vendas e até 500 ``soldados'', além de homens de confiança em cada boca de fumo. Os gerentes também contratam jovens que usam rádios e fogos de artifício para alertá-los para qualquer movimento suspeito.
Os soldados e seus comandantes protegem o território da invasão de outras quadrilhas, atacam favelas de outras facções e organizam comboios para a entrega de drogas e armas -- normalmente formados por carros roubados. Especialistas estimam qu