O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, enfrenta nesta quarta-feira uma nova bateria de questões a respeito das acusações de que um ministro teria enganado o Parlamento a respeito dos abusos cometidos por soldados do país contra iraquianos. A oposição vai querer descobrir quem sabia do quê e quando.
Blair, que há mais de um ano vem sendo bombardeado por críticas por seu apoio à guerra, fará sua aparição semanal no Parlamento depois que ministros disseram que um devastador relatório da Cruz Vermelha foi visto apenas por funcionários subalternos.
Um outro dossiê, divulgado nesta terça-feira pela Anistia Internacional, ampliou os problemas do governo, acusando as tropas britânicas de matarem civis aparentemente inofensivos no Iraque, inclusive uma menina de 8 anos.
O grupo disse que no final de 2003 alertou o ministro das Forças Armadas, Adam Ingram, sobre os incidentes, e que ele reconheceu ter recebido uma carta da Anistia sobre isso.
Mas na semana passada, no Parlamento, Ingram disse que não recebeu nenhuma informação "adversa" sobre as ações das tropas britânicas.
"Ficamos surpresos, porque temos a correspondência devolvida assinada pelo próprio senhor Ingram", disse Neil Durkin, da Anistia, à rádio BBC. "Receio muito ter de dizer que Adam Ingram enganou de forma concreta a Casa dos Comuns Câmara dos Deputados", afirmou o porta-voz do Partido Conservador (oposição) para assuntos de defesa, Nicholas Soames.
O gabinete de Blair já estava sendo criticado desde que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha anunciou ter entregado em fevereiro um relatório, que na segunda-feira vazou para a imprensa dos EUA, detalhando os maus-tratos cometidos contra presos iraquianos por soldados britânicos e norte-americanos.
O texto descrevia como os soldados britânicos batiam no pescoço de presos, levando um deles à morte, e dizia que os abusos cometidos pelos norte-americanos "equivalem a tortura".
Blair e vários ministros disseram que não viram o relatório até recentemente, pois ele teria sido passado apenas a funcionários subalternos. O porta-voz do governo afirmou que as regras da Cruz Vermelha sobre confidencialidade impediam que o assunto chegasse aos ministros.
Mas o secretário de Defesa, Geoff Hoon, e o chanceler Jack Straw deram versões contraditórias sobre quais funcionários exatamente teriam tido acesso ao relatório. Hoon disse que foi o ex-enviado do governo ao Iraque, Jeremy Greenstock, enquanto Straw afirmou ao Parlamento que foram os seus subordinados em Londres que receberam o relatório.
Adversários de Straw consideram incrível que um assunto tão sério não tenha chegado ao primeiro escalão. "O senhor está sugerindo seriamente que os ministros de Relações Exteriores ficaram no escuro sobre este relatório importante por cerca de dois anos?", questionou o conservador Michael Ancram.
"Deveria ter sido entregue prontamente aos ministros, mas acontece que não foi", respondeu Straw.
Embora as acusações contra as tropas britânicas sejam moderadas em comparação com as imagens chocantes de abusos cometidos por norte-americanos, uma pesquisa mostrou nesta terça-feira que o Partido Trabalhista, de Blair, pode estar sofrendo o impacto do escândalo. O governo, de acordo com a pesquisa, tem o apoio de apenas 32% dos britânicos, menor índice em 17 anos.