Rio de Janeiro, 15 de Setembro de 2026

Torturador do Khmer Vermelho tinha de "matar ou ser morto"

Quinta, 26 de Novembro de 2009 às 08:31, por: CdB

O chefe de torturas e presídios do regime cambojano do Khmer Vermelho (1975-79) tinha de "matar ou ser morto" e agia como uma "máquina obediente", disse seu advogado na quinta-feira, na reta final da fase de depoimentos a um tribunal organizado pela ONU que pela primeira vez julga um integrante daquela ditadura comunista.

Kaing Guek Eav, ou Duch, que dirigiu a notória prisão S-21, é acusado de ter ordenado a morte de mais de 14 mil pessoas. A promotoria pediu na véspera 40 anos de prisão para ele, mas o advogado François Roux solicitou ao tribunal que seja leniente com o réu de 67 anos, alegando que ele cooperou plenamente com o processo.

– Sem Duch, o julgamento não poderia ter se desenrolado se ele, como outros, tivesse decidido permanecer em silêncio – afirmou Roux a um tribunal lotado com mais de 600 pessoas, inclusive muitos sobreviventes do regime ultracomunista que deixou estimados 1,7 milhão de mortos.

De acordo com a defesa, esse ex-professor de matemática cometeu atrocidades porque sua vida estava em jogo.

– O acusado estava absolutamente, ele próprio, nas mãos do partido. E na verdade ele teve de operar como uma máquina, uma máquina obediente – disse Roux.

– Ele próprio estava em uma situação em que tinha de escolher matar ou ser morto. Não desejamos que nosso cliente seja um bode expiatório – completou.

Duch deve voltar ao tribunal na sexta-feira, último dia do julgamento. O veredicto está previsto para março.

Ele é acusado de "crimes contra a humanidade, escravização, tortura, abusos sexuais e outros atos desumanos" na época em que dirigia a prisão de Tuol Sleng, também conhecida como S-21. As atrocidades ocorridas naquela antiga escola secundária, hoje um museu, estão entre os capítulos mais sombrios do século 20. Apenas sete das 14 mil pessoas que passaram pela S-21 sobreviveram.

A promotoria pediu aos cinco juízes do caso que rejeitem a tese de que o réu não tinha escolha senão cumprir as ordens, já que ele seria "ideologicamente da mesma mente" que os líderes do Khmer Vermelho e nada fez para impedir que os carcereiros cometessem as torturas.

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