Música tocada em alto volume e a escuridão de um capuz são algumas vezes suficientes para quebrar a resistência de uma pessoa fragilizada pela falta de sono. E, se isso não for o suficiente, o detento pode ser estapeado ou chacoalhado com violência suficiente para machucá-lo, mas não de forma permanente.
Usado contra árabes por autoridades israelenses e classificado por seus críticos como um tipo de "tortura light", esse método de interrogatório agora se mostra dominante em meio à "guerra contra o terror" declarada pelos EUA, dizem grupos de defesa dos direitos humanos.
Ainda assim muitos especialistas o defendem como último recurso em uma corrida para impedir atentados suicidas da Al-Qaeda, cujas fileiras difusas mostraram-se de difícil penetração para agentes de países ocidentais. "Diante do terrorismo, toda democracia recorrerá à tortura se achar que isso evitará ataques contra seus civis. A questão é saber se tais métodos são usados com controle", disse Alan Dershowitz, professor de direito da Universidade Harvard (EUA).
O governo norte-americano nega usar a tortura, apesar de um número crescente de relatórios da Anistia Internacional e do Human Rights Watch falarem em abusos cometidos em prisões militares dos EUA localizadas no Afeganistão, no Iraque e na baía de Guantánamo (Cuba). Soldados britânicos estacionados no golfo Pérsico também foram alvo de denúncias semelhantes.
As reclamações mais freqüentes são sobre impedir detentos de dormir ou comer, de forçá-los a ficar horas em uma posição desconfortável com algemas nos pés e pulsos e um capuz na cabeça. Muitos acusados também disseram ter sido agredidos com golpes e com choques elétricos. A violência é suficiente para provocar escoriações, mas não para deixar marcas permanentes.
Esses métodos, que as autoridades norte-americanas descrevem como de "estresse e ameaça" e não como tortura, lembram as táticas usadas pelo serviço secreto de Israel em detentos árabes. O Estado judaico as qualifica de "pressão física moderada". Segundo membros das forças de segurança de Israel, o serviço secreto do país compartilhou informações sobre métodos de interrogatório com os norte-americanos.
Informante renitente
As autoridades não fornecem detalhes sobre os interrogatórios realizados em meio à "guerra contra o terror".
Dershowitz, que escreveu sobre os desafios enfrentados pelas agências de combate ao terrorismo, disse que o escrutínio judicial dos métodos usados pelos militares norte-americanos não é possível porque os abusos acontecem no exterior.
Para obter uma discrição ainda maior, as forças dos EUA transferem alguns dos detentos para países do Terceiro Mundo onde a "tortura pesada" é a norma. A Anistia Internacional também relatou tal prática.
A coerção física foi claramente importante em ao menos um caso: a captura do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein em dezembro passado. A localização dele foi extraída de um informante. "Esse cara estava sendo interrogado. Ele não estava querendo cooperar", afirmou um oficial das Forças Armadas dos EUA ao jornal The Washington Post.
Grupos de combate à tortura dizem que o uso da força produz mais freqüentemente informações falsas do que algo útil. "Assume-se que a tortura seja um método eficiente de interrogatório. Mas a tortura não é sempre uma técnica eficiente. As pessoas sob tortura dizem qualquer coisa para não sentirem mais dor", afirmou a secretária-geral da Anistia Internacional, Irene Khan.