Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026

Torcedores sem hotel transformam a cidade do Rio em 'camping'

Um fenômeno tem chamado a atenção dos cariocas: os "hermanos", torcedores vindos de países vizinhos, que vêm transformando a cidade num grande acampamento improvisado, embora se tenha comentado muito nos últimos meses sobre o déficit e os altos preços de hospedagem durante a Copa do Mundo no Rio de Janeiro.

Sexta, 20 de Junho de 2014 às 07:30, por: CdB
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Copacabana ganhou uma fila de veículos 'acampados' na orla "Hospedado" na rodoviária, o argentino Carlos Rodrigues vende artesanato Torcedores dormem amontoados no saguão da rodoviária Alejandro e Sebastían Rodrigues vieram de Buenos Aires em uma van de frete adaptada
Um fenômeno tem chamado a atenção dos cariocas: os "hermanos", torcedores vindos de países vizinhos, que vêm transformando a cidade num grande acampamento improvisado, embora se tenha comentado muito nos últimos meses sobre o déficit e os altos preços de hospedagem durante a Copa do Mundo no Rio de Janeiro. Cientes das dificuldades que enfrentariam, muitos vieram dispostos a acampar ou estacionar seus trailers e motor homes em áreas especiais, onde se paga uma taxa diária para se ter acesso a eletricidade, chuveiros e cozinha coletivos, mas chegando ao Rio se deram conta de que não há muitos campings por aqui e os poucos que existem ficam muito distantes do centro. Além disso, há os que vieram com orçamento muito baixo e já estavam preparados para dormir em qualquer lugar, inclusive na praia e no chão da rodoviária. O argentino Carlos Rodrigues, de 55 anos, disse ter percorrido os mais de 3,5 mil quilômetros entre Mendoza, na Argentina, e a capital Fluminense, totalmente de carona, e que nos primeiros dias até pôde pagar por hospedagem. - Aluguei um quarto na casa de uma família na favela da Rocinha. Estavam me cobrando R$ 100 por noite. Paguei as primeiras três, e vi que não daria mais, então fui para a praia de Copacabana - conta. Depois de alguns dias nas areias da orla (onde a polícia proíbe os turistas de montarem barracas, mas não os impede de passar a noite em sacos de dormir), a chuva forte que atinge o Rio nos úiltimos dois dias fez com que Rodrigues buscasse outra morada.
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- Me falaram da rodoviária, e aqui me parece muito bom. Em geral nos mandam embora durante o dia, mas hoje com a chuva forte acho que abriram uma exceção - diz. Vagas disputadas O argentino se refere a um espaço criado no primeiro piso do Terminal Rodoviário Novo Rio coberto com uma espécie de grama sintética verde (semelhante a um tapete), e equipado com assentos estofados e uma grande TV de plasma, cercado por peças publicitárias da rodoviária Novo Rio.
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O local, que aparentemente serviria para passageiros assistirem a partidas enquanto aguardavam seus ônibus, acabou virando uma disputada hospedaria gratuita, o epicentro de um microcosmos dos "hermanos" dentro da rodoviária carioca, que inclui ainda banheiros, chuveiros e lanchonetes. Na noite de quinta-feira, à agência britânica de notícias  BBC  viu cerca de 50 a 60 pessoas abrigadas no local. Juli Gomes, de 19 anos, e o namorado John Moreno, de 23, ambos colombianos de San Gil de Santander, acabam de voltar do banho e ainda terminam de enxugar os cabelos enquanto Uruguai e Inglaterra duelam na imagem do telão de plasma. - Encheu muito por aqui hoje, com essa chuva. Vamos ter que esperar o fim do segundo tempo para ver se alguém sai e abre um espaço - diz Juli. Visivelmente preocupada com os novos vizinhos, a garota explica que os dois têm emprego na Colômbia (ela é representante comercial e ele coreógrafo e cabeleireiro) e alugam um apartamento, mas quiseram se aventurar pelo Brasil por dois meses com orçamento bem reduzido. - Estamos há dois meses na estrada, de ônibus. Viemos parando, e passamos por Equador, Peru e Bolívia. Essa vai ser nossa terceira noite aqui na rodoviária - conta John. - Chegamos a olhar preços de hotéis e pousadas, mas era tudo muito caro. Nos mandaram procurar nas favelas, mas é impossível pagar. Apesar das disputadas vagas gratuitas no "lounge", nem tudo é de graça na "Copa da rodoviária". Cada ida ao banheiro custa R$ 1,50 e um banho de chuveiro coletivo não sai por menos de R$ 5. E para comer? "Em Curitiba comíamos muito bem. Com R$ 5,90 tínhamos um buffet livre. Aqui o mais em conta é R$ 10, em Copacabana. Comida caseira, com arroz, feijão, e um pedaço de frango. Se for carne sai por R$ 11", conta o casal. Já o chileno Oscar Castillo, de 44 anos, opta pelos supermercados. Questionado sobre a alimentação, mostra uma sacola de mercado com alguns pães amassados e fatias de queijo e presunto. "É o que dá", conta. - O que vale é a aventura, claro, mas não entendo. Os brasileiros enlouqueceram. Está tudo muito caro. Não se pode comer, não há onde se hospedar - opina, adiantando que ele e a mulher devem ficar no mínimo duas noites na rodoviária. Improviso em Copacabana Os cariocas vêm se surpreendendo com as "invasões" colombianas, chilenas e argentinas dos últimos dias, que migram agora conforme seus times se classificam nas próximas etapas da Copa. Alguns já passaram por Cuiabá e Curitiba, outros, como os argentinos, vão agora para Belo Horizonte e depois Porto Alegre. Muito mais comum no Chile e na Argentina, a tradição de acampar ou viajar em "casas sobre rodas" não é tão difundida no Brasil, onde não há tanta infraestrutura para isso. Não que os poucos espaços disponíveis não estejam sendo usados. Campings nas praias do Recreio e Pontal estão lotados, e cerca de 2 mil chilenos montaram acampamento improvisado em uma fazenda em Itaboraí, a cerca de 60 quilômetros do centro do Rio.
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Em Copacabana o que chama a atenção são as dezenas de motor homes e trailers que resistem estacionados na orla, pouco depois de onde está montada a Fan Fest da Fifa. Os irmãos Alejandro e Sebastían Rodrigues, de 33 e 36 anos, vieram de Buenos Aires numa van de frete adaptada com um beliche e um frigobar improvisados. As roupas ficam no meio, assim como os outros pertences pessoais. - Faço frete, entrega de móveis - diz Sebastían, acrescentando que os dois levaram cerca de 60 horas da capital Argentina até o Rio, fazendo breves paradas. Embora também tenham orçamento apertado, os que estão sobre rodas costumam ter situação financeira um pouco melhor. - Estou negociando um ingresso para Belo Horizonte, para a partida contra o Irã, por mais ou menos US$ 300. Se não der certo, pago até US$ 500 na hora. Mais não dá - conta Alejandro. Quanto aos planos, não há dúvidas. "Ficar, claro. Não importam as condições, o que importa é esta oportunidade, uma Copa na América do Sul, tão perto de casa. Vamos a Belo Horizonte, e depois Porto Alegre, acompanhar a seleção e ver a Argentina se tornar campeã", diz o argentino.  
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