Sob os restos de um verão excepcional, com dias longos e luminosos, reúne-se na cidade industrial de Manchester - berço da Revolução Industrial e do movimento operário britânico - mais um congresso anual do Partido Trabalhista britânico, o velho Labor Party. Depois de quase 10 anos de reinado de Tony Blair - o terceiro mais longo da história constitucional inglesa, mas ainda dias abaixo da marca de Margareth Thatcher - o atual congresso (24-27 de setembro de 2006) deverá apresentar uma novidade por todos esperada: a data da retirada da cena política do primeiro-ministro.
Ocorre que Blair gostaria de adiar ainda mais esta retirada, se possível até as próximas eleições regionais inglesas. Duas forças contrárias batem-se aqui: de um lado, a perda de popularidade e de credibilidade de Tony Blair, acossado pelo desastre da guerra no Iraque e por suas sucessivas mentiras sobre as razões do apoio cego ao Governo Bush; por outro lado, Blair gostaria de fazer uma retirada triunfal, evitando que os últimos anos de sua administração (após 2003) marquem a lembrança do seu governo. Contudo, a continuidade de Blair no poder poderia - depois da espetacular vitória de 1997 sobre os conservadores -, facilmente, levar a uma derrota do Labor Party nas próximas eleições. Assim, grande parte dos deputados trabalhistas - mais de 30 membros do Parlamento - e vários importantes ministros exigem a renúncia já - no máximo até dezembro de 2006 - permitindo que o sucessor mude a face do governo e prepare o partido para as próximas eleições.
Tempestade de Verão
Ainda em pleno verão londrino, com toda a gente lotando os pubs de Riverside, Tony Blair teve que enfrentar a mais grave crise de gabinete da sua gestão. Paradoxalmente a crise não foi gerada pela oposição do Partido Conservador, mas surgiu no interior do seu próprio partido e do seu próprio gabinete. No inicio de agosto o ministro da defesa Tom Watson renunciou enviando uma carta aberta ao premier exigindo uma definição da data de sua renúncia. Blair, surpreendido, declarou seu próprio ministro como "desleal, descortês e errado!". Deu-se, então, uma explosão em cadeia: mais sete ministros de Estado renunciaram, exigindo uma definição. Para estes, todos membros do Parlamento, a possibilidade, bastante concreta, de perda de mandatos nas próximas eleições ditaram a estratégia de substituição do premier.
Coube a oposição conservadora, e aos tablóides de sempre, manter o clima de galhofa e da crítica mordaz ao governo, declarando Tony Blair como "lame duck": gíria para um governo paralisado e inoperante. Na mesma semana as tropas inglesas eram duramente atingidas no Afeganistão, com mais três mortos, além de alvo de atentados no Iraque.
Tony Blair gostaria de manter a tônica do debate político nacional, tal como seu congênere em Washington, na questão do terrorismo e na ameaça à segurança de cidadãos britânicos, visando com isso justificar sua opção pela guerra. Contudo, os erros de guerra e o apoio incondicional a Bush marcaram profundamente o líder trabalhista. Grande parte dos britânicos acredita que a segurança do país, incluindo-se aí os atentados cometidos em Londres, decorreram da política de Blair de apoiar os estados Unidos no Iraque. Além disso, Blair teria mentido seguidamente em relação às causas e ao real risco da Guerra no Iraque.
Assim, depois de um primeiro mandato dinâmico, reformador e capaz de mobilizar jovens e minorias multiculturais no país - além de um irresistível charme intelectual, em grande parte emprestado por acadêmicos como Anthony Giddens - Blair perdeu a iniciativa política. Seu governo começou a se parecer, cada vez mais, com aquilo que sempre foi: uma versão adocicada de neoliberalismo. A propalada "Terceira Via" exauriu-se em si mesma, fazendo com que a trajetória política de Blair constituir-se de um dos mais populares premier dos tempos modernos a um dos mais impopulares (The Economist).
É neste sentido que Blair resiste
Tony Blair: o ocaso de uma liderança
Por Francisco Carlos Teixeira - Sob os restos de um verão excepcional, com dias longos e luminosos, reúne-se na cidade industrial de Manchester - berço da Revolução Industrial e do movimento operário britânico - mais um congresso anual do Partido Trabalhista britânico, o velho Labor Party. (Leia Mais)
Terça, 26 de Setembro de 2006 às 09:29, por: CdB