Filho de um advogado abastado e conservador de Newcastle, o mesmo Blair que na juventude não tinha a política em seus planos foi responsável por um terremoto no cenário político-partidário britânico: para reverter a longa decadência da Grã-Bretanha no século XX, levou a esquerda para o centro político.
O primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair, conseguiu nas últimas eleições gerais o seu terceiro mandato consecutivo, igualando-se ao feito de Margareth Thatcher, do Partido Conservador, nos anos 80. Contudo, o Partido Trabalhista - o chamado New Labor recriado pelo próprio Blair no início dos anos 90 - perdeu mais de cem deputados. Um Blair sombrio declara ter "entendido o recado dos ingleses".
Blair e o New Labor
Blair havia, na sua juventude, imaginado ser um pastor, com grande vocação religiosa, ainda hoje visível no tom e na ambição ética dos seus discursos no parlamento britânico. Filho de um advogado abastado e conservador de Newcastle, não tinha a política em seus planos. Ainda na sua juventude na Universidade de Oxford, onde estudou Direito, Blair teve contato com várias correntes de esquerda e, muito especialmente, com Roy Jenkins. Coube a Jenkins, em contato com diversos intelectuais extremamente abalados pela amplitude do desastre e da rejeição do socialismo no leste europeu, traçar um programa alternativo para o Partido Trabalhista. Tratava-se, principalmente, de lançar ao mar seus "passageiros" de esquerda, particularmente os grupos trotskistas infiltrados no partido.
Vários intelectuais, como o prestigioso Anthony Giddens, marcado pela imperiosidade da diversidade em face da igualdade, ajudaram a traçar o novo perfil trabalhista. Num mundo marcado pela mito da chamada "Queda do Muro (de Berlim)" - um lugar comum das novas direitas neoliberais e que servia de palavra-código para combater o Estado do Bem-Estar Social - os intelectuais do Labor procederam a uma profundo processo de superação da "modernidade socialista" do programa partidário. Blair foi seu artíficie. Ele chegou ao partido trazido através de sua prática advocatícia no escritório de Derry Irving, um popular advogado de causas populares. No escritório, em contato direto com o mundo do trabalho, Tony conheceu uma advogada católica, oriunda dos meios operários de Liverpool: Cherie Boott. Foi Cherie que o levou para o Partido Trabalhista, casou-se com Tony, em 1980, e lhe deu quatro filhos.
No partido, Tony formou uma forte parceria com um jovem gênio das finanças, Gordon Brown, e com um charmoso deputado, voltado para a gestão publica, Peter Mandelsohn. Estes seriam os homens que o acompanhariam até o terceiro mandato no último dia 5 de maio (de 2005). Tony Blair dedicou-se, com afinco, a aprofundar as reformas antiesquerdizantes do partido, alienando a velha tradição do líder operário Michael Foot. Aliando-se à direita do partido, com Neil Kinnock, Blair lançou sobre a esquerda trabalhista a responsabilidade pelas sucessivas derrotas frente aos conservadores de Thatcher.
Em 1995, Blair assumia, finalmente, a liderança do Labor, impondo a sua reforma. Um dos seus aspectos tornou-se emblemático da presença de Blair no Novo Trabalhismo: a supressão da secular Cláusula Quarta do Programa do Labor, que estabelecia como meta partidária a nacionalização dos meios de produção. Encerrava-se toda uma tradição política trabalhista, de viés estatizante e socialista, iniciada com o primeiro governo do Labor, de Ramsay MacDonald, em 1923.
Nascia o New Labor e a chamada Terceira Via.
A Terceira Via
Para Blair, Gordon Brown, Mandelsohn e outros companheiros do New Labor, a Terceira Via deveria ser um caminho médio, de recusa simultânea ao velho socialismo e ao liberalismo desenfreado da dupla Thatcher/Reagan. Para Blair, tratava-se de construir um novo caminho, evitando polarizações sociais e, principalmente, relançando a economia brit