Rio de Janeiro, 30 de Outubro de 2026

Tiroteio nas Américas

Por Flávio Aguiar - A irresponsabilidade conservadora é tamanha no Brasil que num momento desses chega a pedir, na imprensa, que o Brasil isole a Venezuela, impedindo-a de entrar no Mercosul. Até mesmo do ponto de vista conservador isso é suicídio puro, ameaçando levar o continente a uma corrida armamentista. (Leia Mais)

Quarta, 28 de Novembro de 2007 às 21:11, por: CdB

Lá pelos idos da posse de Evo Morales na Bolívia, quando o então recém empossado presidente cumpriu promessa eleitoral de nacionalizar (com inteira justiça) a política do petróleo e derivados, começou o canto das sereias conservadoras sobre o propalado “fracasso” da política externa brasileira no continente.

Brandiu-se a acha do nacionalismo capenga de “defender os interesses nacionais”. Capenga porque de um pé só: os mesmos e as mesmas que exigiram a “dureza” de Brasília para com La Paz defenderam ardorosamente a “moleza” nas relações com as grandes empresas sediadas na Europa e nos Estados Unidos.

Na imprensa conservadora brasileira a tendência hegemônica é provinciana, paroquial, colonizada e anacrônica. Tudo o que lembra América Latina ou América do Sul provoca irisipela na maioria dos comentaristas, a não ser para lembrar que o Chile – que disfarçadamente aparece nesta visão como o “menos índio” de todos os nossos vizinhos – é melhor do que o Brasil... de Lula, naturalmente.

Daí seguiu-se o passo constante de atacar como leniente a política do Itamaraty com relação à Venezuela, Bolívia, e menos insistentemente, o Equador. O episódio do recente bate-boca entre o presidente Hugo Chávez e o rei Juan Carlos reacendeu aquele provincianismo colonizado e anacrônico, que às vezes se disfarça de ironia, quando na verdade não vai além do sarcasmo e do preconceito anti-popular e sobretudo anti-soberania popular. Houve até comentarista lamentando não haver um rei português que espinafrasse Brasília. Aparentemente tratar-se-ia de uma “boutade” irônica; na verdade, o comentário espelha a verdade da verdade verdadeira.

Bolívia e Venezuela passam por momentos dramáticos de sua vida política. A Bolívia está à beira de uma guerra civil secessionista, provocada, no fundo, pela inconformidade da direita diante do “governo índio” de Evo Morales, disfarçada pela polêmica de “onde” será a capital do país, se em Sucre, se em La Paz. Na Venezuela, onde, até segunda ordem, existe uma ordem constitucional e democrática com um governo legitimamente eleito, se aproxima o desenlace da reforma constitucional, que pode abrir um novo contencioso de dimensões continentais.

Este quadro só reforça o papel de mediador que, aliás, vem sendo pedido em dimensões continentais, que o Brasil pode exercer, inclusive, no caso da Venezuela, com a vizinha Colômbia, no sentido até mesmo de evitar que essa situação tensa desemboque numa corrida armamentista no continente que com certeza só o Diabo sabe onde pode ir parar. E o Brasil, seja por cima da mesa ou por baixo do pano tem condições de fazer isso, não só devido a sua dimensão política no continente, mas também pela nova posição que o país está ocupando na cena mundial, graças aos avanços sociais, ainda que tímidos diante do que poderiam ser, ao acerto da política multi-lateral adotada pelo Itamaraty, e de alguma sorte, como essa da descoberta de novas reservas de petróleo na plataforma submarina.

Na Venezuela é evidente que o governo de Hugo Chávez passa por dificuldades. O projeto de reforma constitucional, sobretudo pela cortina de fumaça (mas fumaça intoxica) da proposta da reeleição por tempo indeterminado do presidente, afastou bases de apoio do governo, notadamente entre a intelectualidade, mas talvez também entre outros setores: de longe, é difícil precisar. A proposta, em si, revela a força do movimento chavista, mas também uma de suas fragilidades. Sem Fidel (batamos na madeira três vezes), parece que Cuba ficará mais ou menos onde está. Mas sem Chávez, ninguém sabe onde a Venezuela irá parar.
Talvez numa cruenta guerra civil, porque a direita venezuelana, que mereceu o apoio e o incentivo de Aznar para seu golpe em 2002, simplesmente não aceita o “alevantamento” do povo dos cerros, dos pobres do país, que finalmente estão obtendo uma dimensão de vida republicana impulsionada pelas realizações e pela retórica mais bolivariana do que socialista de Hugo Chá

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