Rio de Janeiro, 02 de Janeiro de 2026

’Teu nome é Rodrigo’, diz Loures a Joesley: senha de acesso a Temer

Áudio gravado por dono da JBS revela que Palácio do Jaburu era local de encontro pra tratar de propinas com Michel Temer

Sexta, 26 de Maio de 2017 às 10:56, por: CdB

Áudio gravado por dono da JBS revela que Palácio do Jaburu era local de encontro pra tratar de propinas com Michel Temer

 

Por Redação - de Belo Horizonte e Brasília

 

Novo áudio vazado para a mídia conservadora, nesta sexta-feira, revela o diálogo entre o deputado afastado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) e o sócio do Grupo JBS Joesley Batista. Na conversa, o empresário comenta com o parlamentar investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o encontro com o também suspeito Michel Temer. O delator, que hoje mora em Nova York, EUA, em um apartamento avaliado em US$ 100 milhões, no endereço mais caro da cidade, agradeceu o empenho de Loures. Este, por sua vez, retribuiu com a senha para hoje improváveis próximos encontros:

— (Da próxima vez) Quando você chegar e o cara perguntar, teu nome é ‘Rodrigo’.

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Loures, o homem que saiu correndo com uma mala cheia de dinheiro de propina, era homem de confiança de Temer

Tratava-se da senha para driblar a segurança do Palácio do Jaburu. Assim seria possível manter encontros nada republicanos com o presidente de facto, Michel Temer.

Leia, adiante, a transcrição do diálogo entre Loures e Joesley:

Loures: “A conversa com ele (Temer) foi boa lá aquele dia?”
Joesley: “Muito boa, muito boa. Eu tava precisando ter aquela conversa lá com ele. Primeiro, brigado.”
Loures: “Imagina.”
Joesley: “Super, super discreto ali, bem, é, também dei meu nome nada. Entrei, entrei direto na garagem, desci, fui ali naquela salinha ali”.
Loures: “Protege você, te deixa à vontade, dá para fazer sempre assim. Quando for, quando você chegar e o cara perguntar, teu nome é ‘Rodrigo’. O menino… como aqueles militares ali da portaria não são controlados por nós, a gente nunca sabe quem vai estar naquela posição. O Comando fica trocando esses caras. Quando você chega, a placa do (inaudível). Diz: ‘O ‘Rodrigo’ vai chegar aí com o carro tal’. O menino que está na porta sabe nada”.
Joesley: “Funcionou super”.

Falando com Geddel

Loures: “Ele queria acho que também falar com você, te ouvir, não é? E da outra vez, ele perguntou naquele dia, ele falou assim: ‘mas ele te disse o que é?’. Eu falei: ‘Presidente, nem disse, nem eu perguntei, porque (inaudível)’. Daí ele até disse assim: ‘é, então, mas diga a ele que se ele quiser falar, que ele pode falar com você’.”
Joesley: “Isso.”
Rocha Loures: “‘Ele só vai falar se ele quiser falar. Então, tem que deixar o Joesley à vontade’.”
Joesley: “Agora eu estou autorizado, porque ele me autorizou.”
Joesley aponta a Rocha Loures quem eram seus interlocutores no Planalto.
Joesley: “Então, primeira coisa que eu fui falar com ele era exatamente isso. (Inaudível) Eu disse assim: ‘Michel, eu falava (inaudível) com o Eduardo. Aconteceu o que aconteceu com o Eduardo, enfim, aí eu fui falar com o Geddel. Aí eu tava falando com o Geddel, tudo bem, aí aconteceu o que aconteceu com o Geddel, que eu falava com o Padilha aí, acho que hoje o Padilha está voltando, mas…”

Padilha

Loures: “Voltou já.”
Joesley: “Isso, aí o Padilha estava naquela situação. Pô, eu tenho que achar com quem que eu falo. Aí ele falou: ‘Pode falar com o Rodrigo, o Rodrigo é da minha mais alta confiança. Tudo’. Então, pronto. Falei, então: ‘Então, pronto, agora eu tô em casa’. Aí, então, foi ótimo, foi conversa. Falei, então, o seguinte: ‘não vou ficar te enchendo o saco, vou falar tudo com o Rodrigo que eu precisar, nós vamos tocando. Se em algum momento tiver alguma coisa que eu ache que é importante, aí eu venho’.”
Loures: “Aí vocês se encontram.”
Joesley: “Isso.”

Ouça a conversa:

 

Petista mineiro

Joesley Batista, na teia de corrupção que abasteceu ao longo de uma década, também aponta o repasse de R$ 30 milhões ao governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT). No acordo de delação premiada firmado com a Procuradoria-Geral da República (PGR) ele teria repassado a propina para Pimentel em outubro de 2014. A fonte teria sido o estádio Mineirão. Na época, Pimentel era candidato ao governo estadual e ganha a eleição.

Segundo Joesley, o pedido foi feito por Edinho Silva (PT), ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Na época, Silva era o tesoureiro da campanha de reeleição da atual presidenta cassada Dilma Rousseff. O empresário acrescenta que, posteriormente, tratou da transação de propina diretamente com Rousseff, que teria confirmado a necessidade do repasse. Recomendou que procurasse “o Pimentel”.

O encontro entre Joesley e o governador mineiro teria acontecido no Aeroporto da Pampulha. O dono da marca Friboi disse, em depoimento, ter recebido a orientação de fazer o pagamento dos R$ 30 milhões por meio da compra de participação de 3% na empresa que detém a concessão do Mineirão. Ele teria sido apresentado ainda no aeroporto ao dono de uma construtora.

Mineirão

— Nos contratos, agora nós somos donos de 3% do estádio. E eu acho que esse rapaz de alguma forma passou o dinheiro para o Pimentel — disse Batista, em seu depoimento à PGR.

Nos documentos entregues por Batista à PGR, a construtora mencionada é a HAP Engenharia. Trata-se da acionista da Minas Arena, concessionária contratada para a reforma do Mineirão na Copa do Mundo de 2014 e atual administradora da arena desportiva.

Joesley Batista teve seu acordo de delação premiada homologado no STF, semana passada. Ele e seu irmão, Wesley Batista, prestaram depoimentos que comprometem políticos de diversos partidos. Entregaram, também gravações de conversas com o senador mineiro Aécio Neves (PSDB). Por decisão do STF, Aécio teve seu mandato suspenso.

Defesa

A assessoria do governador Fernando Pimentel divulgou nota, nesta sexta-feira, em que afirma ser possível perceber que as afirmações de Joesley Batista em relação ao governador não têm nenhum suporte em provas ou evidências materiais. “Novamente, acusações levianas vêm a público sem que a versão do acusador apresente comprovações que sustentem sua versão”, acrescenta o texto.

Também em nota, A HAP Engenharia informou que é sócia minoritária e proprietária de 16% da concessão do Mineirão. A empresa confirmou que vendeu parte de suas ações, mas afirmou que os recursos recebidos foram totalmente destinados à operação da construtora, não tendo havido repasse de qualquer montante a nenhum político ou partido.

Concessionária

“Após vários meses de negociações entre representantes das partes envolvidas, a empresa vendeu 3% das ações, conforme aprovação por unanimidade registrada em Ata da Assembleia Geral Extraordinária da Minas Arena”, diz a nota.

A HAP Engenharia acrescenta que está à disposição da Justiça para prestar todos os esclarecimentos que se fizerem necessários.

Por sua vez, a Minas Arena informou que nem a JBS, nem sua controladora J&F, são acionistas do estádio Mineirão. “Para a formalização da compra e venda de ações, são necessárias autorizações em função de contratos financeiros, que não foram apresentadas.

"O Mineirão reforça seu compromisso com a transparência e a ética e está integralmente à disposição das autoridades competentes para fornecer todas as informações necessárias”, conclui a concessionária.

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