Áudio gravado por dono da JBS revela que Palácio do Jaburu era local de encontro pra tratar de propinas com Michel Temer
Por Redação - de Belo Horizonte e Brasília
Novo áudio vazado para a mídia conservadora, nesta sexta-feira, revela o diálogo entre o deputado afastado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) e o sócio do Grupo JBS Joesley Batista. Na conversa, o empresário comenta com o parlamentar investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o encontro com o também suspeito Michel Temer. O delator, que hoje mora em Nova York, EUA, em um apartamento avaliado em US$ 100 milhões, no endereço mais caro da cidade, agradeceu o empenho de Loures. Este, por sua vez, retribuiu com a senha para hoje improváveis próximos encontros:
— (Da próxima vez) Quando você chegar e o cara perguntar, teu nome é ‘Rodrigo’.
Tratava-se da senha para driblar a segurança do Palácio do Jaburu. Assim seria possível manter encontros nada republicanos com o presidente de facto, Michel Temer.
Leia, adiante, a transcrição do diálogo entre Loures e Joesley:
Loures: “A conversa com ele (Temer) foi boa lá aquele dia?”
Joesley: “Muito boa, muito boa. Eu tava precisando ter aquela conversa lá com ele. Primeiro, brigado.”
Loures: “Imagina.”
Joesley: “Super, super discreto ali, bem, é, também dei meu nome nada. Entrei, entrei direto na garagem, desci, fui ali naquela salinha ali”.
Loures: “Protege você, te deixa à vontade, dá para fazer sempre assim. Quando for, quando você chegar e o cara perguntar, teu nome é ‘Rodrigo’. O menino… como aqueles militares ali da portaria não são controlados por nós, a gente nunca sabe quem vai estar naquela posição. O Comando fica trocando esses caras. Quando você chega, a placa do (inaudível). Diz: ‘O ‘Rodrigo’ vai chegar aí com o carro tal’. O menino que está na porta sabe nada”.
Joesley: “Funcionou super”.
Falando com Geddel
Loures: “Ele queria acho que também falar com você, te ouvir, não é? E da outra vez, ele perguntou naquele dia, ele falou assim: ‘mas ele te disse o que é?’. Eu falei: ‘Presidente, nem disse, nem eu perguntei, porque (inaudível)’. Daí ele até disse assim: ‘é, então, mas diga a ele que se ele quiser falar, que ele pode falar com você’.”
Joesley: “Isso.”
Rocha Loures: “‘Ele só vai falar se ele quiser falar. Então, tem que deixar o Joesley à vontade’.”
Joesley: “Agora eu estou autorizado, porque ele me autorizou.”
Joesley aponta a Rocha Loures quem eram seus interlocutores no Planalto.
Joesley: “Então, primeira coisa que eu fui falar com ele era exatamente isso. (Inaudível) Eu disse assim: ‘Michel, eu falava (inaudível) com o Eduardo. Aconteceu o que aconteceu com o Eduardo, enfim, aí eu fui falar com o Geddel. Aí eu tava falando com o Geddel, tudo bem, aí aconteceu o que aconteceu com o Geddel, que eu falava com o Padilha aí, acho que hoje o Padilha está voltando, mas…”
Padilha
Loures: “Voltou já.”
Joesley: “Isso, aí o Padilha estava naquela situação. Pô, eu tenho que achar com quem que eu falo. Aí ele falou: ‘Pode falar com o Rodrigo, o Rodrigo é da minha mais alta confiança. Tudo’. Então, pronto. Falei, então: ‘Então, pronto, agora eu tô em casa’. Aí, então, foi ótimo, foi conversa. Falei, então, o seguinte: ‘não vou ficar te enchendo o saco, vou falar tudo com o Rodrigo que eu precisar, nós vamos tocando. Se em algum momento tiver alguma coisa que eu ache que é importante, aí eu venho’.”
Loures: “Aí vocês se encontram.”
Joesley: “Isso.”
Ouça a conversa:
Petista mineiro
Joesley Batista, na teia de corrupção que abasteceu ao longo de uma década, também aponta o repasse de R$ 30 milhões ao governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT). No acordo de delação premiada firmado com a Procuradoria-Geral da República (PGR) ele teria repassado a propina para Pimentel em outubro de 2014. A fonte teria sido o estádio Mineirão. Na época, Pimentel era candidato ao governo estadual e ganha a eleição.
Segundo Joesley, o pedido foi feito por Edinho Silva (PT), ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Na época, Silva era o tesoureiro da campanha de reeleição da atual presidenta cassada Dilma Rousseff. O empresário acrescenta que, posteriormente, tratou da transação de propina diretamente com Rousseff, que teria confirmado a necessidade do repasse. Recomendou que procurasse “o Pimentel”.
O encontro entre Joesley e o governador mineiro teria acontecido no Aeroporto da Pampulha. O dono da marca Friboi disse, em depoimento, ter recebido a orientação de fazer o pagamento dos R$ 30 milhões por meio da compra de participação de 3% na empresa que detém a concessão do Mineirão. Ele teria sido apresentado ainda no aeroporto ao dono de uma construtora.
Mineirão
— Nos contratos, agora nós somos donos de 3% do estádio. E eu acho que esse rapaz de alguma forma passou o dinheiro para o Pimentel — disse Batista, em seu depoimento à PGR.
Nos documentos entregues por Batista à PGR, a construtora mencionada é a HAP Engenharia. Trata-se da acionista da Minas Arena, concessionária contratada para a reforma do Mineirão na Copa do Mundo de 2014 e atual administradora da arena desportiva.
Joesley Batista teve seu acordo de delação premiada homologado no STF, semana passada. Ele e seu irmão, Wesley Batista, prestaram depoimentos que comprometem políticos de diversos partidos. Entregaram, também gravações de conversas com o senador mineiro Aécio Neves (PSDB). Por decisão do STF, Aécio teve seu mandato suspenso.
Defesa
A assessoria do governador Fernando Pimentel divulgou nota, nesta sexta-feira, em que afirma ser possível perceber que as afirmações de Joesley Batista em relação ao governador não têm nenhum suporte em provas ou evidências materiais. “Novamente, acusações levianas vêm a público sem que a versão do acusador apresente comprovações que sustentem sua versão”, acrescenta o texto.
Também em nota, A HAP Engenharia informou que é sócia minoritária e proprietária de 16% da concessão do Mineirão. A empresa confirmou que vendeu parte de suas ações, mas afirmou que os recursos recebidos foram totalmente destinados à operação da construtora, não tendo havido repasse de qualquer montante a nenhum político ou partido.
Concessionária
“Após vários meses de negociações entre representantes das partes envolvidas, a empresa vendeu 3% das ações, conforme aprovação por unanimidade registrada em Ata da Assembleia Geral Extraordinária da Minas Arena”, diz a nota.
A HAP Engenharia acrescenta que está à disposição da Justiça para prestar todos os esclarecimentos que se fizerem necessários.
Por sua vez, a Minas Arena informou que nem a JBS, nem sua controladora J&F, são acionistas do estádio Mineirão. “Para a formalização da compra e venda de ações, são necessárias autorizações em função de contratos financeiros, que não foram apresentadas.
"O Mineirão reforça seu compromisso com a transparência e a ética e está integralmente à disposição das autoridades competentes para fornecer todas as informações necessárias”, conclui a concessionária.