O escritor John Updike foi testemunha ocular da queda da primeira torre do World Trade Center, mas, mesmo assim, fala com afeto do jovem muçulmano idealista que é o protagonista de seu novo romance, <i>Terrorist</i>, que planeja explodir um túnel em Nova York.
As resenhas do 22º romance de Updike, lançado nesta terça-feira, vêm sendo positivas, embora o retrato simpático feito do personagem-título - Ahmad, de 18 anos - provoque inquietação entre algumas pessoas.
- Me pareceu a coisa mais evidente do mundo. Qualquer pessoa pode escrever um romance sobre um terrorista malévolo - disse o escritor premiado com o Pulitzer, em entrevista concedida no domingo.
- Eu procurei mostrar como um americano totalmente humano pode ver-se convocado para fazer parte de uma conspiração catastrófica. Eu quis levar o leitor para dentro da cabeça de um terrorista - explica.
Ahmad é filho de uma americana de origem irlandesa e de um estudante egípcio que fez intercâmbio nos EUA e que abandonou mulher e filho depois de alguns anos. Quando criança, Ahmad adere ao islamismo e, na época em que está concluindo o secundário, sente-se enojado pelo o que vê à sua volta em uma fictícia cidade industrial de Nova Jersey.
- Demônios - pensa Ahmad.
- Esses demônios tentam afastar meu Deus - conclui o personagem.
É a primeira linha do livro, em que Ahmad olha para a cena em seu colégio, onde garotas expõem as barrigas e parte dos seios, enquanto ele próprio é maltratado por seus colegas negros e latinos.
Rejeitando a idéia de fazer faculdade, Ahmad é aconselhado por seu imã a aprender a dirigir caminhões e consegue trabalho numa empresa de móveis. Seduzido pela idéia do paraíso, ele concorda em levar um caminhão-bomba para explodir o túnel Lincoln, que liga Nova Jersey a Manhattan.
Apesar disso, como diz o crítico do <i>New York Times</i>, Charles McGrath.
- Ahmad é amável, ou, pelo menos, uma pessoa que atrai. Sob muitos aspectos, é o personagem mais moral e mais atencioso do livro inteiro - disse.
Updike disse que se interessou pelo misto, presente em adolescentes e jovens, de idealismo, religião e incerteza quanto ao futuro.
- Senti muita empatia por ele quando ele se vê sozinho em sua missão - disse o escritor com afeto, comparando o momento em que Ahmad caminha pela rua para buscar o caminhão-bomba com as caminhadas que ele próprio fazia quando jovem, planejando seu futuro como escritor.
- É o mesmo senso de missão secreta, algo que diferencia você do resto do mundo - disse ele.
Updike comentou que, desde que assistiu em pessoa à queda da primeira torre do World Trade Center, sente uma ligação com o desastre. Para ele, o livro, cujo primeiro título provisório foi <i>Land of Fear</i> (<i>Terra do Medo</i>), foi um passo óbvio.
Na realidade, o livro diz respeito menos a política do que às raízes do ódio, especialmente as tensões raciais, e Updike reconhece que não é politicamente correto.
Apesar de ser um dos escritores americanos de ficção mais bem-sucedidos da atualidade, Updike admite que não tem tido sucesso com o cinema.
- Este livro vem sendo proposto a diversos estúdios, mas não tenho conhecimento de nenhum interesse sério - disse ele.
- No cinema, as pessoas esperam conseguir identificar os personagens bons e os maus. Mas o meu interesse é indagar 'o que é bom e o que é mau - conclui.