Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Terremoto na China abrevia encontro do Bric

O terremoto ocorrido na China que matou mais de 600 pessoas levou o presidente do país, Hu Jintao, que está no Brasil, a adiantar o seu retorno. Com isso, a 2ª Cúpula do Bric (grupo formado pelo Brasil, pela Índia, Rússia e China), da qual ele participaria nesta sexta-feira, foi antecipada para esta quinta, mesmo dia em que se realiza o encontro do Ibas, do qual fazem parte o Brasil, a Índia e a África do Sul. Hu Jintao chegou ao Brasil na véspera, à noite. (Leia Mais)

Quinta, 15 de Abril de 2010 às 11:51, por: CdB

O terremoto ocorrido na China que matou mais de 600 pessoas levou o presidente do país, Hu Jintao, que está no Brasil, a adiantar o seu retorno. Com isso, a 2ª Cúpula do Bric (grupo formado pelo Brasil, pela Índia, Rússia e China), da qual ele participaria nesta sexta-feira, foi antecipada para esta quinta, mesmo dia em que se realiza o encontro do Ibas, do qual fazem parte o Brasil, a Índia e a África do Sul. Hu Jintao chegou ao Brasil na véspera, à noite. Como ele participaria do encontro do Bric apenas na sexta, o dia de hoje estava reservado para a reunião do Ibas.

– Estamos tendo um dia especialmente complicado, devido ao terremoto na China o presidente Hu Jintao tomou a decisão muito generosa de vir ao Brasil de qualquer maneira, mas terá que partir hoje, então estamos comprimindo o programa de dois dia em um dia – explicou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, ao informar sobre a alteração nas agendas dos encontros.

Com isso, o dia de trabalhos começaram às 8h da manhã e o encerramento estava previsto para depois das 21h30, pouco antes do jantar oficial de encerramento das cúpulas.

Relações mais fortes

A visita do líder chinês Hu Jintao à América Latina fortalece a aproximação entre duas regiões do mundo com economias em franca expansão e ainda por cima complementares. A China, gigante asiático de 3 bilhões de habitantes, é carente de matérias-primas, energia e alimentos que encontra em abundância nos parceiros latino-americanos.

Um relatório publicado nessa terça-feira pela Comissão Econômica para a América Latina da ONU, a Cepal, mostra que as exportações latino-americanas para a China aumentaram 26% em dez anos, contra volume de importações chinesas de 27% no mesmo período. Em 2008, a China já era o terceiro parceiro comercial da América Latina, com trocas de 140 bilhões de dólares.

A recessão do ano passado nos Estados Unidos e na União Europeia acelerou ainda mais os negócios entre empresários chineses e latino-americanos. Em 2009, a China se tornou o maior mercado comercial para o Brasil, atrás dos Estados Unidos. Mas os economistas notam um desequilíbrio que merece ser ajustado nos próximos anos: o nível dos investimentos chineses na região é baixo, em comparação com as trocas comerciais.

Um estudo da OCDE recomenda que a América Latina defina uma estratégia unificada com projetos nas áreas de infraestrutura, logística e novas tecnologias para absorver a demanda chinesa de investimentos.

Sistemas globais

No encontro do BRIC realizado em Brasília, os quatro gigantes econômicos debatem temas internacionais, como o sistema monetário global, a política climática e a situação do Irã. O que o Brasil, a Rússia, a Índia e a China têm em comum é serem todas nações populosas, com enormes potenciais econômicos. Segundo Stefan Maer, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e Segurança, o BRIC "é uma formação de países, que no futuro terá não apenas uma grande influência na política internacional, mas também uma influência crescente".

– É uma junção informal de países, que sempre se reencontram. Eles tentam equalizar suas posturas antes da participação em conferências maiores e em negociações internacionais, mas não se trata de uma aliança ou formação firme – explica Maer.

O acrônimo BRIC existe desde o início deste século, tendo substituído o grupo Big 5, do qual a Indonésia ainda fazia parte. Como esses países concentram um alto número de habitantes – quase metade da população mundial vive nesses quatro Estados – e apresentam uma economia em rápida ascensão, a Indonésia deveria ter continuado a participar do grupo, comenta Uri Dadush, da norte-americana Carnegie Endowment. Segundo ele, a influência crescente do grupo é digna de nota.

– Acredito que os países do BRIC formam um bloco importante, que ganha cada vez mais em importância como pólo oposto ao G-8, ou melhor dizendo, aos Estados do G-7, que já não representam, de fato, a economia global de hoje – completa Dadush.

Na oposição

O que une os países do BRIC é, acima de tudo, um forte interesse em se afirmar como pólo oposto às potências ocidentais tradicionais e ao Japão, explica o especialista. Apesar disso, ele não acredita que as nações venham algum dia a formar uma união política e comercial relevante.

– Tendo em vista os interesses estratégicos e as diferenças entre os Estados do BRIC, parece mais improvável que em cinco ou 15 anos ainda haja uma ligação lógica entre esses países. Há simplesmente muitos assuntos nos quais as opiniões dos mesmos são divergentes – resume Dadush.

Um bom exemplo de como as visões China e da Índia podem ser díspares é a fronteira comum entre esses dois países, a respeito da qual há um debate constante. Além do fato de que a Rússia e a China sempre se posicionaram de forma oposta na concorrência política.

– Em certos campos políticos, há provavelmente alguns pontos em comum, sobretudo, talvez, no que diz respeito à política climática, um assunto no qual todos os quatro países hesitam muito em investir. Em outras questões fica muito difícil definir pontos em comum, já que a China é um país calcado num regime autoritário, a Rússia num semi-autoritário e o Brasil e a Índia em democracias. A forma mais fácil de compreensão dentro do bloco é a união pela oposição a determinadas causas, como por exemplo a posturas dos EUA ou da União Europeia – aponta Maer.

Assunto delicado

Uma oposição temida pelo Ocidente poderia ser uma postura de apoio dos países do BRIC ao Irã, um assunto que está na pauta do encontro de cúpula que acontece nesta quinta-feira. Tradicionalmente, a China e a Índia sustentam uma posição mais positiva em relação ao Irã do que a dos EUA e seus aliados.

– Acredito que as relações que a China e a Índia mantêm com os EUA são baseadas numa ampla gama de interesses econômicos e geopolíticos, entre outros. Acho que as conversações entre os países do BRIC sobre o Irã, caso aconteçam, vão refletir esses interesses. Por isso não espero nenhum resultado radical desse encontro, que pudesse vir a desafiar os EUA. O tema é simplesmente sensível demais – pondera Dadush.

Política monetária

Durante o encontro, acontecem também discussões a respeito do sistema monetário global.

– Há muito que se questiona o dólar como moeda de reservas. Desde a crise financeira global, que começou nos EUA, fala-se de novo a respeito disso. Mesmo assim, a maioria das pessoas que tratam diretamente do tema afirmam que, no momento, não há nenhuma outra alternativa real para substituir o dólar – diz Dadush.

No fim, os especialistas vislumbram um futuro positivo para o BRIC.

– De qualquer forma, vimos cada vez mais que, nos últimos anos, países grandes e influentes vêm usando cada vez menos organizações multilaterais, como a ONU, por exemplo, para fazer política e definir diretrizes. Eles procuram muito mais a formação de alianças informais com outros países, através das quais é possível discutir, de forma flexível, sobre um ou outro ponto, a fim de que se consolide, se possível, posições comuns – conclui Maer.

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