Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2026

Tensão ameaça acirrar problemas econômicos na Turquia

Com a intensificação dos protestos contra Erdogan, economia turca, que já enfrentava vulnerabilidade estrutural, começa a sentir os efeitos da instabilidade política. Economistas alertam que situação pode piorar.

Segunda, 10 de Junho de 2013 às 10:54, por: CdB
turquia1.jpg
Um número cada vez maior de opositores ao governo Recep Tayyip Erdogan está cancelando cartões de crédito
Com a intensificação dos protestos contra Erdogan, economia turca, que já enfrentava vulnerabilidade estrutural, começa a sentir os efeitos da instabilidade política. Economistas alertam que situação pode piorar. Um número cada vez maior de opositores ao governo Recep Tayyip Erdogan está cancelando cartões de crédito e retirando suas poupanças do GarantiBank, o terceiro maior banco da Turquia. Ele pertence, em grande parte, à empresa Dogus Holding, que, por sua vez, também controla a emissora de televisão NTV, um dos maiores canais de notícias da Turquia. E como em muitas outras emissoras turcas, nela quase não há relatos sobre os protestos no país. Há quase duas semanas, a insistência vem sendo a principal arma dos manifestantes turcos contra o governo nesta segunda-feira, eles ignoraram o discurso desafiador feito na véspera por Erdogan e continuaram acampados em diversas partes do país. Mas agora eles apostam também no boicote como arma para se fazerem ouvir. - De 35 milhões a 40 milhões de liras turcas entre 14 milhões a 16 milhões de euros foram retirados nas últimas semanas, e por volta de 1.500 cartões de crédito foram devolvidos", disse Ergün Özen, gerente-geral do GarantiBank. Na última semana, as pessoas protestaram diante de vários restaurantes pertencentes à Dogus Holding. Elas batiam palmas e clamavam "Kalk!" ("Levantem!"), tentando animar os clientes a deixar o local. Alguns reagiram e abandonaram os restaurantes. Impacto no turismo O clima continua tenso na Turquia. No domingo, a Praça Taksim, em Istambul, viu mais de 30 mil manifestantes se reunirem na maior manifestação já registrada contra o governo. O protesto foi uma resposta ao discurso de Erdogan, que advertiu que “paciência tem limite” e desafiou os manifestantes a conseguirem uma vitória nas urnas. - Só faltam sete meses para as eleições locais. Quero que deem a eles [aos manifestantes] uma primeira lição nas urnas  disse o premiê na cidade de Adana. Enquanto cada vez mais manifestantes vão às ruas, cada vez menos turistas visitam o país. "Existe um impacto direto sobre o turismo", diz o economista Seyfettin Gürsel. "Mas ele é limitado a Istambul." Isso é sentido principalmente por lojas de souvenires, como a do comerciante Rifat Güzel. - Eu tenho que lidar com 85% a 90% de perdas. Os protestos são totalmente negativos para o meu negócio - disse Güzel, enquanto espera por clientes em frente à sua loja em Istambul. A economia como um todo vem sido afetada pela instabilidade na Turquia. O índice da Bolsa de Valores de Istambul atingiu o nível mais baixo desde o início de março, e o câmbio da lira turca frente ao dólar e ao euro caiu para a menor cotação dos últimos 18 meses. Para Seyfettin Gürsel, diretor da Faculdade de Economia da Universidade Bahcesehir em Istambul, os tumultos seriam parcialmente culpados pela situação. - Antes da crise, os investimentos diretos estrangeiros na Turquia eram muito altos. Eles financiaram a maior parte do deficit da balança corrente. Devido à crise, os investimentos diretos estrangeiros diminuíram - opina. Problemas estruturais No geral, porém, Gürsel afirma que se trata de um problema conjuntural. - O deficit da balança corrente é financiado principalmente pela emissão de obrigações, empréstimos de curto prazo e investimentos de curto prazo no mercado de ações. Isso também é uma forma de fraqueza estrutural - diz. Para o economista, a Turquia precisa de mudanças no setor econômico, como, por exemplo, uma abrangente reforma do mercado de trabalho e reformas fiscais. - Infelizmente, após a eleição do atual governo, tais reformas foram postergadas. Eu não tenho certeza se o governo está ciente desses problemas estruturais - afirma. Já o jornalista e economista turco Mustafá Sönmezdiz diz que a evasão de capitais já havia começado antes dos tumultos. - Os protestos só aumentaram a saída de capitais, porque eles têm um impacto sobre as condições de segurança e sobre as relações com a União Europeia e os Estados Unidos. Os investidores se sentiram perturbados pela agitação e se retiraram. O prognóstico de Sönmez é claro: se a violência continuar, e o governo não tomar uma medida para se aproximar dos manifestantes, a situação econômica da Turquia vai piorar ainda mais.
Tags:
Edições digital e impressa