O Brasil aumentará em breve sua presença militar na Amazônia, onde o governo vê potenciais ameaças, entre elas a presença de organizações não-governamentais (ONGs) que "trabalham com interesses estrangeiros".
Em audiência em uma comissão do Senado que debateu a existência de riscos de "internacionalização" da Amazônia, um militar de alta patente citou na quinta-feira entre problemas da região a desordem em torno da propriedade de terras e a presença das ONGs.
"Há um grande número (de ONGs) na região, com presença acentuada de estrangeiros. A maior parte é séria. Muitas trabalham com interesses estrangeiros", disse o secretário de Política Estratégica e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa, almirante Miguel Ângelo Davena. "É um fator a ser considerado", acrescentou.
Em seu depoimento, Davena afirmou que, se o Estado brasileiro "se mostrar incapaz" de ocupar a imensa e quase despovoada região, ela "despertará o interesse e a cobiça das nações centrais".
O militar disse que em 2006 haverá 25 mil soldados do Exército nos 5,2 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia Legal (que ocupa 60 por cento do território nacional). Atualmente, há 22 mil militares. O acréscimo se deverá à transferência de três brigadas de outras regiões.
Ao falar sobre o interesse estrangeiro pela floresta, que tem a maior concentração de água doce e 30 por cento da biodiversidade do planeta, Davena citou recentes declarações de Pascal Lamy, ex-comissário de Comércio da União Européia e candidato à presidência da Organização Mundial do Comércio.
Em fevereiro, durante conferência em Genebra, Lamy propôs submeter a Amazônia e outras florestas tropicais à gestão coletiva da comunidade internacional.
A declaração provocou na época uma dura reação do chanceler Celso Amorim, para quem a frase revelava "uma visão preconceituosa, que subestima a capacidade dos países em desenvolvimento para gerenciar de forma soberana e sustentável os seus recursos naturais".
Presente na audiência, o secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, assegurou que, à medida que o Brasil saiba administrar seus recursos naturais, "qualquer ameaça" se reduz.
Mas o diplomata disse que "para o usufruto dos recursos não é necessária a presença física (estrangeira)" e garantiu que "há uma teoria que vem se estruturando nos setores acadêmicos (internacionais)" segundo a qual os bens públicos comuns devem ser gerenciados pela comunidade internacional.
Por isso, concluiu, a Amazônia "é uma região complexa, que merece atenção maior".
O senador Jefferson Peres (PDT-AM) contestou as afirmações do almirante e do diplomata e assegurou que a suposta ameaça à soberania brasileira é infundada. "É pura paranóia. É uma postura subdesenvolvida em relação ao Primeiro Mundo."
Em seguida, deu como exemplo a ampla repercussão no Brasil de qualquer referência crítica ao país no exterior, e disse que a França e os Estados Unidos não dão nenhuma importância ao que dizem os jornais brasileiros sobre eles.
"Se O Globo falasse da internacionalização do Museu do Louvre, ninguém daria importância. Se o Le Figaro publica algo sobre a internacionalização da Amazônia, é uma tempestade", disse o senador.
Por causa da ação humana, uma área maior do que a do Paraguai já foi devastada na Amazônia desde 1970. No ano passado, oito países amazônicos, liderados pelo Brasil, anunciaram uma maior cooperação, inclusive no âmbito da defesa, para reafirmar sua soberania e preservar a selva, ameaçada pelos delitos e pela destruição.