Rio de Janeiro, 17 de Outubro de 2026

'Telhado de vidro' e eleições de 2012 empurram Alckmin para parceria com Dilma

Quinta, 18 de Agosto de 2011 às 19:56, por: CdB

'Telhado de vidro' e eleições de 2012 empurram Alckmin para parceria com DilmaAo lado da presidenta Dilma e dos outros três governadores do Sudeste, Geraldo Alckmin assinou acordo para unificar o Bolsa Família a sua versão paulista, o Renda Cidadã. Com isso, procura distanciar-se da estratégia tucana de ampliar o confronto com o governo federal.

Marcel Gomes

SÃO PAULO - O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), deu na quinta-feira (18) mais um passo para se distanciar da estratégia tucana de ampliar o confronto com o governo federal, abalado após a queda de mais um ministro acusado de corrupção. Ao lado da presidenta Dilma Rousseff e dos outros três governadores da região Sudeste, Alckmin assinou um acordo para unificar o Bolsa Família a sua versão paulista, o Renda Cidadã. A parceria criará um cartão único para a transferência de renda a famílias classificadas como extremamente pobres, com renda inferior a R$ 70 mensais per capita.

Além do evidente ganho de gestão nos projetos sociais, o acordo revela que o governador de São Paulo manterá sua política de boa vizinhança com PT e PMDB, aliados no plano federal. Uma primeira razão para isso é a natureza das críticas dos tucanos ao governo Dilma – a de que o loteamento de cargos entre a base aliada incentiva a corrupção na administração pública. Nesse aspecto, Alckmin sabe que tem “telhado de vidro”. Ao montar seu governo e garantir o apoio de 72 dos 94 deputados da Assembléia do Estado, o governador repartiu as secretarias entre aliados.

A pasta de Esportes, Lazer e Juventude é comandada por José Benedito Pereira Fernandes, do DEM; a de Turismo, por Márcio França, do PSB; a de Saneamento e Recursos Hídricos, por Eduardo Giriboni, do PV; e a de Emprego, por David Zaia, do PPS. Rodrigo Garcia, do DEM, passou a ocupar a pasta de Desenvolvimento Social após a crise aberta pela filiação do vice-governador, Guilherme Afif Domingos, ao PSD, partido comandado pelo prefeito de São Paulo, Geraldo Kassab. Eleito pelo DEM, Afif acumulava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, mas acabou exonerado da pasta para dar lugar a um tucano.

Outro forte argumento para Alckmin manter boas relações com o governo federal são as eleições de 2012. O governador paulista fará de tudo para não se indispor com o PMDB do vice-presidente Michel Temer – dois dos ministérios alvos de acusações de corrupção, o Turismo e a Agricultura, mantêm peemedebistas no comando. A estratégia do Palácio dos Bandeirantes prevê que Alckmin mantenha, nos bastidores, o pé em duas canoas – a do provável candidato peemedebista, Gabriel Chalita, muito próximo a o governador, e a do possível candidato tucano, José Serra.

Se Chalita vencer, Alckmin ganharia um forte aliado no PMDB para ser o candidato tucano nas eleições presidenciais de 2014. Se Serra ganhar, teria de passar novamente pelo constrangimento, como em 2006, de renunciar ao cargo, caso deseje a vaga de candidato presidencial. No xadrez da futura disputa municipal, o atual prefeito, Geraldo Kassab, deve apoiar Serra, e o PT deve apresentar ou o ministro Fernando Haddad (Educação) ou a senadora Marta Suplicy. Com três candidatos competitivos, Alckmin poderia coletar dividendos com a vitória de dois deles.

Logo após vencer as eleições para o Palácio dos Bandeirantes, em 2010, Alckmin lançou-se numa empreitada para incluir o PMDB em seu secretariado. A vaga até já havia sido escolhida – a Secretaria de Agricultura, então conduzida pelo serrista João Sampaio. Com o fortalecimento do papel de Michel Temer no comando da sigla no Estado, após a morte de Orestes Quércia, em dezembro de 2010, prevaleceu a posição da executiva nacional em prol da aliança com o PT. Alckmin só viria a indicar o novo secretário de Agricultura em maio último – escolheu a agrônoma Mônika Bergamaschi, ligada ao ex-ministro Roberto Rodrigues.

Em entrevista à Carta Maior, o cientista político André Pereira César, da CAC Consultoria, de Brasília, fez uma análise pragmática e não moralista desse jogo partidário. Segundo ele, “o desenho institucional do presidencialismo de coalizão brasileiro é também reproduzido nos Estados, obrigando presidente e governadores a buscarem uma composição”. “O fracionamento é muito grande, são 30 partidos oficialmente registrados no Tribunal Superior Eleitoral. Se ninguém é majoritário, você tem de buscar aliados”, diz, alertado que, com “inteligência política e controle”, é possível evitar problemas.

O fracionamento partidário ou de alianças entre partidos tem sido historicamente atacados pelo Congresso e o Judiciário, através de medidas como a verticalização e a fidelidade partidária. No entanto, segundo César, uma solução só viria com a “implosão do sistema”. “Seria necessário fazer uma reforma política que forçasse a redução do número de partidos e reduzisse os cargos de confiança na administração pública, que viram moeda de troca na formação das alianças”, conclui.


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