Mônaco sem as casas é uma forma comum de descrever o travado circuito do Grande Prêmio da Hungria de Fórmula 1.
Esqueça o glamour. Se alguns pilotos bocejam ao pensar em uma visita à pista quente e empoeirada de Hungaroring, isso é resultado da reputação do local como segundo circuito mais lento do campeonato.
As corridas aqui podem se tornar procissões, em razão das enormes dificuldades de ultrapassagem. A disputa pode ser tediosa se comparada a outros circuitos.
- Ver a tinta secar, contar os grãos de penugem em seu umbigo... preencher o formulário do imposto de renda; tudo isso pode ser bem mais excitante do que assistir ao Grande Prêmio da Hungria - dizia uma propaganda da Red Bull esta semana.
Mas não foi sempre assim.
Houve um tempo, há 20 anos, em que ir a Hungaroring, nas palavras de um correspondente de Fórmula 1 do diário The Times, era a experiência mais arrojada do automobilismo em muitos anos.
Quando a categoria chegou a Budapeste para a primeira corrida atrás da Cortina de Ferro, em agosto de 1986, havia uma sensação de ânimo impensável em realizar uma corrida naquele lugar.
Hoje país-membro da União Européia, a Hungria da época era forte aliada da União Soviética e estava a anos-luz de distância da extravagância e do luxo representado pelo mundo high-tech da Fórmula 1. O Leste Europeu nunca tinha visto nada assim.
SILÊNCIO
Cerca de 200 mil espectadores foram ao circuito naquele ano, e muitos deles ficaram apenas de cueca para enfrentar um calor insuportável.
- Lembro-me de estar no grid de largada e saber que havia algo muito diferente, muito estranho naquela cena - escreveu o britânico Martin Brundle, que terminou em sexto com o sua Tyrrell, em seu livro "Working the Wheel".
- Primeiro eu não conseguia identificar o que era. Então eu percebi que era o silêncio. Eu me senti como um gladiador na arena. Todas aquelas pessoas observavam praticamente em silêncio total, sem saber o que aconteceria depois. Havia muita gente presente que nunca tinha visto ao vivo um grande prêmio antes - acrescentou.
Os carros alugados na Hungria, mesmo para pilotos de corrida acostumados a Ferraris e Porsches, eram Ladas russos para os afortunados, ou os barulhentos e fumacentos Trabants da Alemanha Oriental.
- Foi a primeira vez que muitos de nós estivemos do outro lado da Cortina de Ferro - disse Ann Bradshaw, que na época era assessora de imprensa da Lotus de Ayrton Senna e agora trabalha para a BMW Sauber.
- Todos tínhamos de tirar visto e levava muito tempo para passar pela alfândega, a menos que você fosse finlandês. Nesse caso, você podia passar direto andando, o que achamos muito estranho. O Keke Rosberg adorou.
A primeira corrida, vencida por Nelson Piquet com uma Williams, foi emocionante. O brasileiro foi perseguido por Ayrton Senna até a linha de chegada. Os dois pilotos terminaram com uma volta de vantagem sobre todos os outros competidores.
Desde então, dois campeonatos já foram decididos neste circuito, marcando o título de Nigel Mansell em 1992 e de Michael Schumacher em 2001.
Atualmente, o piloto mais feliz em Hungaroring é provavelmente Kimi Raikkonen, da McLaren, que venceu no ano passado em uma pista que os finlandeses já consideram como se fosse o seu próprio grande prêmio.
Após a prova de domingo, haverá um intervalo até o dia 27, quando a Fórmula 1 volta a se reunir para o GP da Turquia, em Istanbul.
Há 20 anos, o próximo destino após a Hungria era o circuito de Oesterreichring, na vizinha Áustria, no final de semana seguinte.
Aqueles que pegaram um barco para descer o Danúbio rumo a Viena foram escoltados por helicópteros e guardas armados nas margens do rio. "Foi uma aventura, uma grande aventura", disse Bradshaw.