Rio de Janeiro, 09 de Agosto de 2026

Tecnologia x Fome

Quinta, 10 de Julho de 2003 às 09:03, por: CdB

A proposta de tratar a água existente no semi-árido nordestino, visando seu aproveitamento para consumo humano, uso agrícola e armazenamento em tanques de produção de peixes, reuniu três instituições: o Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), o Observatório Nacional (ON) e o Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRB).

Para iniciar as pesquisas, foram escolhidas duas cidades que servirão de experiências-piloto da avaliação de tecnologias de perfuração de poços, dessalinização, purificação da água e de criação de peixes. São elas: Lagoa Real, no interior da Bahia; e Guaribas, cidade do Piauí, onde também está sendo implementado o Programa Fome Zero.

Segundo o coordenador do projeto, engenheiro Gildo de Sá Albuquerque (CETEM), quando ficar comprovada a eficácia do sistema, a tecnologia poderá ser repassada para prefeituras que sofrem com a carência de água, em qualquer lugar do Brasil, ou mesmo para outros países que possuem características parecidas com as nossas.

- Será fonte de renda e fonte de proteína para essas populações, observa Gildo. O coordenador prevê que, na última etapa do projeto, com a chegada da fase de produção de peixes, haverá uma perfeita sintonia com os objetivos do Fome Zero.

Pelos estudos de prospecção realizados nas duas regiões iniciais, coube ao Observatório Nacional fazer os levantamentos geofísicos para avaliar a profundidade necessária para a perfuração. Já ao IRB, com um radioisótopo, coube calcular a capacidade de recarga das águas subterrâneas, os chamados aquíferos ou lençóis freáticos.

O próximo passo será a implantação do projeto nas áreas-piloto. Para isso, ainda neste mês, será feito pedido de financiamento junto ao ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), no âmbito do Instituto Semi-Árido, uma vez que o custo dos estudos de prospecção foi absorvido pelos próprios centros de pesquisa envolvidos no projeto.

Calcula-se que os investimentos necessários para a próxima fase sejam correspondentes aos benefícios esperados. A perfuração de um poço deve ficar em torno de R$ 300 mil, uma vez que, em rochas duras, encontra-se água em profundidades entre 100 e 300 metros. Segundo o coordenador do projeto, "o preço do metro é de R$ 1.000".

A formação rochosa de Lagoa Real é de cristalino, uma estrutura que confere à água alto índice de sais. Os componentes da rocha vão sendo dissolvidos e tornam a água salobra. Por isso, pesquisadores do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ), entraram como parceiros no projeto.

A UFRJ está aperfeiçoando o sistema de membranas, que funcionam como filtros para retirada do sal. As membranas encontradas no mercado recuperam apenas parte da água típica de rochas cristalinas - devido o alto teor de sais - chegando-se a perder metade da água na filtragem. "Daí a necessidade de aumentar a eficiência", explica Gildo.

Mesmo assim, calcula ele, haverá um percentual de água não aproveitável para consumo humano, e esse excedente terá que ser descartado. Para não desperdiçar a água salobra, a idéia é preparar depósitos em cavidades que já foram usadas para atividades de mineração e que estão abandonadas.

Essas áreas se transformarão em verdadeiros tanques de reprodução de peixes, depois de impermeabilizados, onde seriam criadas espécies de água salgada. A unidade da EMBRAPA, de Petrolina, será outra parceira e repassará a tecnologia para reprodução e criação de peixes, já na fase final do projeto.

O sal separado da água filtrada servirá de alimento para bodes. Antes, no entanto, terão que separar o magnésio, componente que pode afetar as fêmeas, por se

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