Rio de Janeiro, 08 de Outubro de 2026

Tarso dá refúgio a Cesare Battisti

Terça, 13 de Janeiro de 2009 às 20:20, por: CdB

O ministro da Justiça Tarso Genro concedeu o refúgio humanitário ao italiano Cesare Battisti, preso no Brasil, desde março 07, e ameaçado de extradição para a Itália. A decisão do ministro confirma a tradição brasileira de proteger os que sofrem perseguições e correm riscos por questões políticas. A campanha em favor de Cesare Battisti foi lançada, na França, tão logo o antigo militante de um grupo de extrema-esquerda perdeu a proteção que lhe dera o presidente francês François Mitterrand e corria o risco de ser extraditado para a Itália, onde tinha sido condenado à revelia a prisão perpétua.

Líder dessa campanha foi a escritora de romances policiais, bestseller na Europa, Fred Vargas, que, ainda no mês de dezembro esteve no Brasil, encontrando-se com político e juristas para evitar a extradição de Battisti. Segue o comunicado do Ministério da Justiça, divulgado à noite, em Brasília. A decisão completa do ministro Tarso Genro pode ser lida aqui.   

O Ministro da Justiça, Tarso Genro, decidiu pela concessão de refúgio ao italiano Cesare Battisti, por entender que existe o elemento de “fundado temor de perseguição”. O voto foi proferido nesta terça-feira, depois de analisados os argumentos do recurso impetrado contra a negativa do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), em novembro passado.
Cesare Battisti, 52 anos, foi condenado à pena de prisão perpétua por duas sentenças, com processo de extradição passiva executória. No pedido de extradição, a Itália alega quatro homicídios que o escritor teria cometido entre 1977 e 1979.

No voto, o ministro Tarso cita o Estatuto dos Refugiados, de 1951, e a Lei 9.474, de 1997, que prevê como motivo de refúgio “fundado temor de perseguição por motivos de raça (...) ou opinião política”. Segundo ele, a Itália reconhece a conotação política, uma vez que na sentença de Battisti consta o crime de associação subversiva, “com a finalidade de subverter o sistema econômico e social do país”.
 
As turbulências políticas na Itália ocorreram de 1970 a 1980. Os homicídios imputados a Battisti foram em junho de 1978 e abril de 1979. Nesse período, o Estado italiano, para se proteger, criou normas jurídicas de exceção.
 
Battisti fugiu da Itália para a França em 1981. Só depois foi condenado, com acusações não embasadas em provas periciais, mas em testemunho do delator premiado Pietro Mutti, ex-companheiro de Battisti. A concessão de refúgio na França se deu por motivos políticos. O presidente François Mitterrand acolheu os italianos sob a condição de que abandonassem a luta armada.
 
Battisti permaneceu na França por mais de dez anos, até que sua condição de refugiado foi revogada, na gestão do presidente Jacques Chirac. Seria extraditado para a Itália. O que havia sido negado por razões políticas, a extradição da França no governo Miterrand, agora seria concedido, também por razões políticas no governo Chirac, diz o voto do ministro.

Com a mudança de posição do Estado francês, Battisti vem para o Brasil, onde está preso desde 2007 na penitenciária do Distrito Federal. Daí a configuração do elemento de “fundado temor de perseguição”, necessário para o reconhecimento da condição de refugiado”.

Tags:
Edições digital e impressa